sexta-feira, 4 de junho de 2021

Maria Cerqueira Cruz, um amor para recordar


Parece que foi ontem que a sentíamos tão perto e protetora de todos nós, tomando água de chuva em copo de alumínio; dona de um sorriso fácil, de mãos calorosas dispostas a ajudar, um olhar doce, um coração generoso, um cheiro de alfazema, cabelo cortado, bem curtinho, pelas mãos de barbeiro Sapo de Jitaúna. Mãe biológica de Tereza, Maria Antônia, Marta Rodrigues, Lúcia, Rita Rodrigues e Jerônimo e, de coração, dos filhos de Vade, Astrogildo, Neidinha de Índia e de um punhado de tantos outros, sem precedente, que pela sua amarela casa passou;
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Esposa de Ziza, irmã de Febone, Amado, Litinha, a guardiã da chave da Igreja São José, a presidente da Legião de Maria, a que sentava do lado esquerdo do altar durante as missas, a mãe, a avó, a amiga... Essa era Maria Cerqueira, pequena na estatura, mas gigante na vida. E, sem medo de errar por excesso, a mulher mais generosa que habitou as terras da Palmeirinha até os dias de hoje.
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Falar de Maria Cerqueira é uma tarefa difícil, porque ela era muitas em uma só, uma mulher à frente do seu tempo. Tentar descrevê-la é arriscado porque as palavras nos traem e pode reduzir uma trajetória de vida que é irredutível. Quem teve a oportunidade de conhecê-la e conviver com Maria, compreende a dificuldade relatada aqui, diante de sua grandiosidade em nossas vidas e na história de construção da nossa comunidade.
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Por isso, optou-se por registrar as lembranças e saudades que estão em nossos corações, fazendo-a presente e viva entre nós e assim sermos justos com a sua história e com o legado que ela deixou.
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Pois bem, a casa de Maria era a casa do acolhimento, viviam de portas e janelas abertas, todo mundo era bem-vindo, seja para lavar os pés sujo de lama, esperar o ônibus, matar a sede com um copo de água ou seja para ver as andorinhas bailar no céu e esconder debaixo da ponte no final das tardes. Ali foi palco de missas, casamentos, festejos, arraiá da vovó, fogueiras, sorrisos e fé, um chão sagrado, abençoado! Era acasa do caminho de muita gente.
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Maria gostava de jaca dura, feijão de grão-de-bico, café preto, tapioca com banana cozida. Sua dispensa sempre teve licor de jenipapo, fazia muitos litros e, também, rabo de macaco, era tradição... uma canção preferida era Gabiraba, Edgar mão branca, cantarolava e dança pela casa, rastando os pés pelo chão amarelo da sala. Uma felicidade era ver sua casa cheia, animada, feliz. A mulher que pegava rã com a mão retirando de dentro de casa para sua filha, Rita, não ter medo, sempre generosa. A que recebia a todos com a frase: “oh meu prezado!”...
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Uma de suas excentricidades, era deixar suas sandálias na estradinha do rio, onde descia com bacias de prato para o Rio de Contas, era um sinal para que soubéssemos onde ela se encontrava, aliás, o Rio de Contas era sua paixão. Quando não pôde ir mais até ele (suas pernas já não a obedeciam mais, como antes), o admirava do pátio e contava suas histórias. Alimentava a vontade de retorná-lo um dia, pela última vez, não deu tempo...
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Semana santa não faltava em sua mesa peixe e nem cuscuz de inhame, pois os afilhados, aos montes, chegariam para pedir sua benção. E ela estava certa, eles sempre apareciam... No natal era ela, muito mais ansiosa que os netos, a abrir a porta para a chegada do papai noel e virava uma menina, entre sorrisos, presentes e festa.
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Maria não era uma mulher vaidosa, não tinha tempo para isso, usava um brinco de arco dourado e a inseparável aliança na mão esquerda. Uma mulher batalhadora, solidária, digna, honrada, que fez da máquina de costura sua aliada, ajudou a criar seus filhos e tantos outros que se somaram com a vida.
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Maria fazia jus a seu nome, não reclamava da vida, não chorava, sempre foi uma imagem forte, sem perder a ternura, uma mulher corajosa, de fé. Até para ir embora, ela teve a grandeza de sair de cena... foi duro, é ainda, pois seu amor é insubstituível, um amor que se retirou...
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Lembramos de Maria com amor e saudade, com alegria que ele nos ensinou, pois temos a certeza que, em cada um de nós, tem um pouco de Maria viva e pulsante. Como canta Bituca “Mas é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana sempre. Quem traz no corpo a marca Maria, tem a estranha mania de ter fé na vida”. Então sigamos!!
Maria que falta você nos faz, olhai por nós!
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Juiz de Fora, abril de 2020
Alexandro Borges Batista
Foto: Arquivo da família Rodrigues
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