quarta-feira, 13 de julho de 2011

Oxalá


Estas comigo desde o meu nascimento
Até os dias de hoje,
Do amanhecer ao entardecer do dia,
Mesmo que às vezes eu não lhe peça
Ou acabo me esquecendo de te,
Mas jamais se esquece de mim.
É paciente e não se envergonha
De minhas atitudes toda vez que
Me deixo ser seduzido pelos
Caminhos de aiyê.

Nunca está indisposto ou sem tempo,
Para ouvir meus lamentos,
Conhece minhas aspirações
Até mais do que eu mesmo.
Quando estou triste, traz-me ire
E faz brotar o sorriso no meu rosto
Outra vez.
Se estou eufórico vibra comigo
E faz com que ela não seja capaz de
Me cegar diante de minha vaidade.

Quando tropeço e caio, me dá a mão
E seu opaxorô para que eu possa
Apoiar e reerguer-me.
Ampara-me e cuida de mim, do meu ori.
Quando choro, transformas minhas
Lágrimas em chuva e as plantas
Agradecem com o verde, as flores
E os frutos.

Quando surgem as barreiras
Impedindo-me de prosseguir,
Passa a minha frente e ajuda-me
A ultrapassá-las com força e dignidade.
Quando me perco diante de tantos
Caminhos búru
Segura minha mão e guia-me naquele
Que me levará a dára.
Se a fome me assola,
Não me deixa faltar o alimento
E sacia meu corpo e minha alma.

Se em algum momento lanço meu olhar
Um tanto desacreditado ao horizonte
Diz-me que nada do que fiz foi em vão
E que eu posso fazer melhor a cada dia.

Quando os vícios tentam me corromper,
Conserva minha pureza e purifica com teu sangue
E afasta tudo aquilo que pode me prejudicar,
Abençoa e guarda meu ilê.
Sempre lhe serei grato e não me cansarei de repetir
Adupé-lewô-Olorun!

O meu pai Oxalá obrigado por fazer-me teu filho
Saúdo sua sabedoria e sua grandiosidade.
Sexta-feira é o seu dia
E de branco prestamos nossa referência
E nosso agradecimento.
Que Olorum se faça sempre presente nas nossas vidas
E guia-nos no caminho do amor.
Por toda sua compaixão, meu pai, o saudamos sempre:
Epa babá Oxalá!!


Allex Borges
Juiz de Fora, julho de 2011


Vocabulário yorumbá:
Aiyê = o mundo terrestre                 
Ire = felicidade                              
Apaxorô= cajado de Oxalá   
Ori = cabeça
Burú - ruim, negativo, destrutivo
Dára - bom, ser bom
Ilê – Casa
Olorum = entidade suprema, força maior, que está acima de todos os orixás
Adupé-lewô-Olorun = graças a Deus por ter conservado minha vida e a minha saúde até hoje

terça-feira, 12 de julho de 2011

Corpo


Gosto do seu corpo encaixado ao meu
Sedento de desejos e quente de tesão
Como em todas às vezes
Que eu o tive em meus braços,
Produzindo um cheiro e um gozo
Inigualável.

Sua pele branca e macia
É um colírio aos olhos
E excita meus pensamentos
Fazendo-me querer viver
Essa mistura de corpos,
Raças e amor em todas as noites.

As noites estão frias ultimamente
E meu corpo sente falta do seu,
Meus pés estão gelados
E procura os seus para serem aquecidos.
Por onde anda você
Que não está ao meu lado na cama
E nem debaixo dos nossos cobertores?

Certamente deve estar a vagar por aí,
És livre, do mundo
E antes do inverno acabar
Virás ao meu encontro
E aquecerá meu coração.
Juntos veremos o nascer da primavera
E o renovar do nosso sentimento
Num colorido igual as das borboletas
Que sobrevoam um jardim florido
Em plena contemplação e zelo,
Sem cobrança, ciúmes ou intolerância.

Agora vou dormir para te encontrar em sonho,
Sei que você vem ao meu encontro
E faremos de mais uma noite
De corpos separados
Um encontro de almas
Pois quem ama confia
E eu confio em você
E sei que você vem
Sempre...


Allex Borges,
Juiz de Fora – julho de 2011  

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Diga-me


Diga-me que tudo o que vivemos
Não foi em vão,
Que suas palavras não foram levianas,
Que tinha uma razão de ser.
Que seu sorriso não foi de deboche,
Mas te felicidade por estarmos juntos.
Que seu carinho não foi algo mecânico,
Mas uma atitude de afeto e cuidado.
Que nossos beijos não foram frios,
Mas quentes e desejados.

Diga-me que não foi desleal
Diante de tudo o que estávamos vivendo,
Diante do nosso sentimento.
Que não desacreditou que tínhamos
Muito haver um com o outro,
Que não sabotou a tentativa de ficarmos juntos.

Diga-me que não foi cego as minhas expectativas
E surdo aos meus apelos.
Que levou a sério tudo o que compartilhamos
E o sentimento que nos unia
Era uma vontade nossa
E não apenas a minha vontade.

Diga-me que idealizou sonhos conjuntos,
Que os planos que fizemos foram reais
E não invenção da minha cabeça.
Que seu coração se sentia embalado
Pela melodia que o meu entoava.
Que tudo o que eu fiz por você
Valeu à pena.

Diga-me que eu não fui apenas um brinquedo,
Um troféu ou só um corpo malhado para você.
Mas alguém que você admirou
E quis ter ao lado,
De corpo e alma.
Que não me deixou falando sozinho
Depois de termos feito amor,
Que me amou para além da cama.
Que eu não fui apenas
Mais um.

Diga-me que não perdi
Meu amor próprio ao te amar.
Que eu soube dosar minha intransigência
Com a sua liberdade
O meu ciúme e minha possessividade
Com a sua autonomia.
Que nossa aspiração não se transformou
Em pesadelo. 

Diga-me se fiquei feio, velho
Sem graça, flácido, desinteressante
E por isso resolveu ir embora.
Diz-me alguma coisa,
Mas não fique calado,
Seu silêncio me deixa atordoado,
Insano.
Fale qualquer coisa,
Mas fale...

Infelizmente temos a necessidade de querer ouvir
Determinadas coisas que vivemos
E com quem vivemos
Para tentarmos dissociar o que foi de fato real ou ilusão
Por milhões de razões,
Seja para aliviar a dor,
Deixar o coração em paz,
Ter motivação para continuar a tocar a vida,
Ou seja para sofrermos menos.

Queremos ouvir
O quanto significou tê-las vivido
E assim ter a consciência tranqüila
Ao olharmos para a história vivida
E para o seu desfecho e assim poder dizer: eu fiz o que pude!
Se não saiu conforme o esperado
Paciência,
Na vida é assim, uma hora a gente perde
Outra a gente ganha,
Mas é preciso sempre caminhar e teimar
E nunca perde a vontade
De se querer amar.

 Allex Borges
Juiz de Fora, Julho de 2010
   

quarta-feira, 6 de julho de 2011

O mar e nós

O  mar tem tantos mistérios
E tantos encantamentos
Assim como nós
Também os têm.

Olhamos o mar e nos encantamos por ele,
Chegamos a acreditar que a dança de suas ondas
E seu azul turquesa
É o retrato maior de sua beleza.
Engano nosso,
Na verdade o que nos encanta
É apenas uma de suas facetas,
Pois quem se aventura a conhecê-lo a fundo
Descobre que seu interior é muito mais fascinante.
O mais importante se esconde dentro,
E aí nos damos conta que o que admiramos
Não é à frente
São os fundos do mar.

Assim como o mar,
Somos nós.
Admiramos de imediato
O que enfeitiça nossos olhos
E por muitas vezes, deixamo-nos de apurar
Outras belezas, outras facetas
Que estão escondidas
Dentro de cada um que se aproxima de nós,
E assim como o mar,
Ficamos a surfar no limiar da superficialidade.

Daí é possível visualizar corações vazios a boiar
Pedindo socorro
Para serem resgatados.
E em desespero,
Para não se afogar na solidão de suas escolhas,
Gritam para serem amados.

Busca-se sempre o melhor,
O mais belo,
O mais perfeito
O mais...
Uma busca incessante e inesgotável
Nesse jogo
As pessoas, os amores, os sentimentos
Tornam-se descartáveis.
 
Nesse embrolho
Deparam-se com amores inconstantes,
Sentimentos líquidos
Que escapolem das mãos
Causando uma aflição inescrupulosa
Para agarrá-los.
E se frustram,
Revoltam-se
Tal qual o mar em ressaca.
E dar-se início a uma busca sem freios,
Solitária.

É preciso aventurar-se
Para além do que os nossos olhos alcançam
E assim poder amar de um modo diferente.
Um amor para além das aparências
Capaz de preencher a lacuna que carregamos no coração.

Deveríamos seguir o caminho
Não inconstante das ondas do mar,
Mas das correntes marinhas.
A força que vem de dentro,
Que tem rumo definido,
São interruptas,
Precisas.
Talvez assim sentíssemos menos vazios
E mais cheios e mais vivos.

 Allex Borges
Juiz de Fora, julho de 2011

terça-feira, 5 de julho de 2011

Pode ser


Pode ser que eu volte a sentir de novo no peito
As batidas aceleradas do meu coração
Esperando a tua chegada.
Que eu sinta o teu cheiro impregnado
Nos meus cobertores,
O teu calor me aquecendo nas noites frias de inverno.

Mas, neste momento, mais do que nunca
Estou bem e tu ainda não me faz falta,
Também não sei se um dia eu sentirei.
Estou convencido que o meu amor por você
Foi uma criação de um coração aflito para amar
Um encanto que se quebrou com a realidade.
Atropelei etapas, tropecei nas minhas vontades
Para tentar ser feliz.

Mas cansei de brincar de faz de contas
Não supre mais minhas necessidades
Nem meus anseios.
Preciso viver emoções reais
Com sentimentos sinceros e únicos.
Preciso me arriscar
A seguir só, sem esperar por você.

Pode ser que eu me decepcione,
Que eu sofra, que eu chore,
Mas se eu não tentar nunca irei saber.
Amar-te foi cômodo,
E não supriu minha carência.

Queria que você soubesse
Que os bons momentos que vivemos juntos
Estarão guardados aqui dentro de mim
Retratados em lembranças guardadas pela memória
E aquecidas pelo coração,
Você faz parte de minha história
E de quem eu sou,
Mas preciso partir...

Olharei para o horizonte com os olhos de esperança
E de conquista
Farei de cada passo dado
O triunfo de alguém que não se contenta com pouco,
Que deseja da vida sempre mais e dos amores idem.

Pode ser que um dia eu volte ou não,
Mas não me interprete mal
Quero apenas subir a montanha e contemplar a lua
Não me peça para ficar,
Não deixe as coisas mais complicadas do que são
Já que não podes seguir comigo,
Deixe-me ir em paz
Preciso fazer isso por mim e por você.
Sei que o amanhecer é sempre doloroso,
Mas também é a possibilidade de um recomeço.

Pode ser que um dia eu sinta sua falta,
Pode ser que um dia você me ame
Do modo que eu desejo e preciso
Pode ser que esse dia não exista.
Enfim, pode ser tanta coisa.  
Por isso que preciso partir,
Não estou fugindo do meu destino
E nem de você.
Estou indo me encontrar
E quem sabe nessa tentativa de encontro
O amor
Desvende o meu caminhar
E venha de uma vez por toda me encontrar,
Pode ser, tenho que partir.

Allex Borges
Juiz de Fora - julho de 2010


domingo, 3 de julho de 2011

Olhos azuis

Navegar no azul turquesa dos seus olhos,
Foi a loucura mais sensata
Que eu poderia fazer naquele momento,
Não havia outra escolha.
Você não só cedeu sua cama,
Mas cuidou de mim
Aqueceu-me do frio
Fez-me sorrir.
Fazia tempo que não me sentia seguro
Ao lado de alguém,
Como eu me senti estando ao seu lado.

Sabíamos dos riscos que estávamos correndo,
Dos ventos que conduziria essa loucura
Mas o nosso desejo foi maior que a nossa lucidez.
Somos senhores de nossas escolhas
E das conseqüências oriundas delas.
Naquele momento eu te escolhi
Ou melhor, nos escolhemos
Assumimos todos os riscos
E não consigo me arrepender de nada,
Faria tudo outra vez.

Nesse processo de tomada de decisão
Eu escolhi uma forma particular
De querer você em meus braços
Pois não quero me magoar
E nem sofrer por causa de minha insanidade,
Da nossa, aliás.   
E sendo assim
Não levarei a sério
Tudo o que disser
E nem tudo o que
Revelar...
Quero apenas saborear cada gozo
Que tu podes me proporcionar.

Não me pertence
E nem sei se pertence a alguém
Mas pouco importa,
Pois quando você está comigo
Tu te apresentas por inteiro
Corpo, alma e pensamento.

Deixarei a porta aberta
Para tu adentrar
E trazer novas emoções
Provar do meu beijo
Sentir o meu cheiro
Compartilhar de minha companhia
Outra vez.

Quando tempo vai durar?
O suficiente
Para nos fazermos bem
Nem mais e nem menos
Sem pressa, sem cobrança e sem dor.

Não me prometa nada,
Não me faça juras de amor
E nem criaremos ilusões,
Vamos viver o que é possível
De ser vivido
Dentro dos limites de cada um
Dentro do prazer
Que aflora com a vontade
Ao estarmos juntos
Então viveremos...
Allex Borges
Juiz de fora, julho de 2011