“O espelho
aprisiona em si um segundo mundo que lhe escapa, no qual o homem se vê sem
poder se tocar, encontrando-se separado dele por uma falsa distância, que pode
diminuir mas não transpor” (Gaston Bachelard).
A magia exercida pelo espelho consiste no poder quase sobrenatural de possibilitar
para além da imagem, a reflexão sobre a essência e a verdade do sujeito que
fita o espelho.
Estilhacei o espelho
a pontapés
pensando destruir
a própria imagem.
(E era eu que habitava
além do espelho.)
a pontapés
pensando destruir
a própria imagem.
(E era eu que habitava
além do espelho.)
Por isso em cada caco
habita agora
um pedaço de mim,
esquartejado.
(José Manuel Simões, 1992, p. 23).
habita agora
um pedaço de mim,
esquartejado.
(José Manuel Simões, 1992, p. 23).
Desde os primórdios
de sua criação ainda na civilização Badariana (do Egito, junto ao Rio Nilo) o
espelho já desapertava fascínios, encantos, magias, desencantos e superstições.
Alguns mais outros menos, mas todos nós somos prisioneiros dele. É uma mística
que nos seduz e nos perturba há séculos, que não acaba com o tempo, ao
contrário, se intensifica, nos consome por completo corpo e alma. Não
permite apenas olhar melhor o mundo, mas possibilita também ver a si mesmo na
ótica dos outros.
Têm horas que ele se apresenta como amigo e, em outros,
como inimigo. Mas é fato que ficamos reféns dele. O lugar do espelho na nossa
vida se tornou vital, é como se pudéssemos materializar o tempo, os minutos da
vida ali diante dos nossos olhos.
Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?
(MEIRELES, 1995, p. 63-64)
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?
(MEIRELES, 1995, p. 63-64)
Para além de assumir um lugar central na nossa
civilização, ele também se diversificou com o passar do tempo. Mas manteve um
papel importante na cultura popular e no imaginário social.
Foi o franciscano John Pekamom um dos mentores do espelho em meados do
século XIII, mas sua popularização se deu bem mais tarde no século XVIII no
qual ele sai do glamour dos palácios vienenses e passa a fazer parte também do
espaço doméstico das casas de Paris, da vida cotidiana e dos momentos de
intimidade. Em todo canto ele está lá, como um totem, registrando cada forma,
materializando cada contorno.
Dos espelhos artesanais de cobre, deixados pelo homem
primitivo no quinto milênio a.C. aos sofisticados espelhos estampados na
Galeria dos Espelhos de Versalhes e aos populares melenkie utilizados como
ornamentos em cinto e correntes, demonstram o poder do seu fascínio exercido no
tempo. Talvez, o mesmo fascínio que impulsionou a Alice adentrar dentro dele e
descobrir seus encantos e superar seus obstáculos na conquista de sua coroa e
assim se tornar a rainha daquele lugar.
Mas você já parou para se perguntar: O que seria de nós sem os espelhos?
Sem poder controlar as nossas caras e bocas? Sensualizar, exercitar o nosso
erotismo? Ensinar-nos a beijar? Pentear
os cabelos? Enfim, a nos admirar? Com certeza, estaríamos fadados ao fracasso,
uma vez que o espelho é uma possibilidade única de visualização e existência do
eu, mas quando este não existe mais, é como se também o sujeito deixasse de
existir.
Sem o espelho não há o belo, eles se completam, se misturam. É nessa
busca infindável pela perfeição que nos metamorfoseamos diante dele e
produzimos variadas e distorcidas imagens.
Hoje que seja esta ou aquela,
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.
Já fui loura, já fui morena,
já fui Margarida e Beatriz.
Já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.
já fui Margarida e Beatriz.
Já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.
Que mal faz, esta cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto,
se tudo é tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?
do meu cabelo, e do meu rosto,
se tudo é tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?
Por fora, serei como queira
a moda, que me vai matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.
a moda, que me vai matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.
Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seus
e morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.
olhos, braços e sonhos seus
e morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.
Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se no espelho.
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se no espelho.
(Cecília Meireles, Mulher ao
Espelho)
É diante do espelho que a nossa escola vem saldar a Marquês de Sapucaí e
mostrar que é a mais bela das belas, a musa da passarela, a alegria que embala
nossos corações e renova nosso amor pelo seu pavilhão seja de cara pintada ou
de cara limpa. Pois nem tudo que se vê, é!
Alexandro Borges
Juiz de Fora, junho de 2014