segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Viçosa, um breve adeus - Parte I

Não aguento mais, quero ir embora!
Nossa! Não suporto mais ficar aqui.
Tô com saudades de casa,
Quero ir embora.
Engraçado, não?!
Pois é, parece que foi ontem
Que essas palavras se repetiam
Incansavelmente
Por bocas de gente de todo canto,
De todo lugar ao pisar em solo viçosense.

Algumas vindas de muito longe,
Cruzando fronteiras,
Mares,
Outras nem tanto assim.
Umas vieram a pé,
De camelo,
De bumba
Experimentando o sabor da poeira
Da estrada,
Com uma mala cheia de medos
E expectativas
E algumas mudas de roupa.

Outras aterrissaram de pára-quedas
Trazendo consigo o sabor das nuvens
E a liberdade dos céus
E uma vontade grande de conquistar
O inesperado.
Também tinha aquelas que aqui já estavam,
Bocas nativas,
Acanhadas
Saboreando o sabor da novidade
E a troca de hábitos, desejos e sonhos.

Do encontro de tantas bocas
Cresceram a fé na vida
E juntos compartilhamos tantas anseios,
Loucuras e devaneios
Que nos marcará para sempre
Como um sinal de felicidade
E de vivacidade.

Éramos um bando,
Uma trupe,
Éramos parceiros
E o que nos unia e nos tornavam fortes
Era o fato de que viemos todos em busca de novos mares
E de novos portos para atracar.
Da vida conhecíamos pouco,
Por isso não desgrudávamos dos cadernos
Com o intuito de aprendermos todas as lições
Que a vida nos proporcionaria estando ali.

Os dias se passaram,
Passaram anos,
Greves,
Nico Lopes,
Jarbinhas, Galpão e Leão
Fábrica de Festas, Betinho,
Lanches Lú, pastel na feira nas manhãs de sábado
E o cachorro quente do Sô Nenzito na praça da prefeitura,
Passaram os shows no Recanto das Cigarras
Cenários onde vivemos e experimentamos grandes emoções,
Histórias para serem contadas em uma vida inteira
Tomadas por uma experiência universitária
Única e personalística,
Mas chegou o momento de partir,
Agora somos nós que passaremos
Para ceder lugar às novas bocas,
Novas lágrimas,
Novos sorrisos.

Hoje fica a certeza que conseguimos
O que a princípio nem sabíamos
O que viemos buscar quando aqui chegamos.
Esperança no amanhã
Nunca nos faltou
Fazia-se presente
Do nascer ao pôr-do-sol,
Nos fazendo vivos,
Nos deixando fortes.
Horizontes foram conquistados,
Diploma debaixo do braço,
Sonhos realizados,
Renovados.
Um nó na garganta,
Lágrimas que brotam dos olhos,
Pois cruzamos a linha de chegada das 4 pilastras
E dizer adeus tornou-se algo
Inevitável.

Nos bancos da universidade,
Aprendemos a ser profissionais
E no da vida, aprendemos a ser gente
Para trilharmos as estradas da vida
De mil encantos
E tantos desencantos,
Amores
E desamores,
Dissabores.
E conquistar o lugar que está reservado
Pra nós.

Por mais que a gente mude o nosso cenário-vida
Que os holofotes não estejam focados em nós,
Que não sejamos mais o alvo dos clicks da Kello
Que não haja mais palco e nem platéia
Que a ribalta esteja em silêncio
Ainda assim estaremos brilhando incandecidamente
Seja no coração que carregamos ao peito,
Que agora está tão pequeno
Seja nas recordações que carregaremos conosco
Ao lembrarmos-nos da UFV,
Ao voltarmos ao seu campus,
Ao reler nossa biografia no livro empoeirado
Esquecido na estante
Ou em nossas fotografias
Que foram várias, que são válidas
Documentando uma época,
Uma juventude,
Um sorriso
Que não voltará mais,
Mas permanecem intactos
Em nossa memória.

Se não vivemos tudo estando aqui.
Vivemos o suficiente para nos transformar
Em quem somos hoje.
A única coisa que eu me arrisco a dizer
É que de tudo ficou a certeza
Que nada será como antes,
Nada.


Allex Borges
Viçosa, março de 2003
  
  

domingo, 23 de outubro de 2011

Um corpo


Um corpo caído ao chão
De uma forma inesperada,
Rápida e silenciosa.
Movimentos involuntários
Que ora se chocava a um patamar sólido,
Ora se recolhia paralisado,
Imóvel.

Por um instante passava a impressão
Que estava morto,
No outro era possível perceber
Um pulsar agonizante dentro do peito.

Havia ali um sofrimento calado
Que clamava para ser ouvido,
Um sofrer visível e inconsciente
Diante de uma vontade de mudança.

Estirado no chão
O corpo padecia com o impacto
Dos movimentos,
Mas o espírito parecia elevar-se
Num êxtase de pureza e libertação.
Sangue e suor se uniam numa mistura amarga.

As lagrimas escorriam dos olhos paralisados
E o rosto já mostrava sinais de cansaço e dor.
O olhar fixo parecia perdido
No emaranhar de suas imagens
E os lábios, sem cor, demonstravam o esboço
De um sorriso amarelado

Do chão o corpo foi removido
Pelos braços de outros conhecidos
Que passavam por perto e o reconheceram.
Levaram-no não sei para onde,
Não sei qual foi o fim daquele corpo  
Ainda tão jovem, tão puro.
Às vezes, me pego a pensar por onde andarás
Aquele corpo juvenil,
Se ficou marcas, cicatrizes daquele dia,
Se renasceu depois de cair ao solo.   

Fiquei tocado com aquele olhar
Que parecia saber tantas coisas sobre os outros
E tão pouco de si.
Não sei para onde o levaram,
Sei que o levaram,
Mas eu jamais o esqueci.

Allex Borges
Viçosa, fevereiro de 2001

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Chuva carioca


Chove no Rio de Janeiro
E eu da minha varanda
Vejo a chuva se entregar para o mar
Tornando uma coisa só
Escorregando sobre as pedras do arpoador...

Eu sou testemunha desse amor
Que supera os impedimentos
E chega ao seu destino final,
Numa sintonia total,
Por inteiro.

Os observo com um olhar de inveja,
Com uma vontade de também
Fazer o mesmo,
De me entregar,  
Amar dessa maneira
Mas não posso,
Não dá
Falta você aqui comigo,
Que partiu e ficou de voltar
E até hoje
Nem sinal...

É dificil o tempo que passa
E você não vem.
Um dia disseste que me amava
E eu e meu coração acreditamos,
Confiamos.
Machuca, magoa
A esperança que ainda vive
Dentro de mim.

Mentiras que se tornaram verdades
Verdades que se tornaram mentiras
E eu nem sei mais em que acreditar,
Desacreditar.

Longe ou perto,
Doce ou amargo
Ando tão perdido
Entre escolhas
Que não sei escolher.
Minha alma está nua,
Meus pensamentos
Em preto e branco.

Caiu à chuva, veio à neblina
E não consigo enxergar mais nada
Nem o mar,
Nem as pedras,
E nem você.

Antes era o amor que me cegava,
Agora é a falta dele.
Meu reino hoje
Por um cheiro,
Um beijo
Ou qualquer coisa
Que me faça sonhar
E esquecer
De tudo
E assim não me sentir
Tão só
Nesse dia frio.

Allex Borges

Rio de Janeiro, outubro de 2011

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Dias triste


Abre a janela
E deixa o sol entrar
Para aquecer os meus dias tristes
De solidão
E assim secar
Minhas lágrimas
De dor e aflição.

Ultimamente tenho andado
Assustado
E com medo
Da forma que a vida
Tem se apresentado para mim.
Hoje é um dia daqueles
Que precisamos tanto
De um abraço
Dos mais apertados,
Confortáveis
Sinônimo de não temas
Eu estou aqui contigo
Para te proteger...

Impotência, fragilidade, insegurança
Não sei que nome tem
Esse sentimento que preenche
E aperta o meu coração
Agora.
Estou sendo bombardeado
De todos os lados
Que faz eu não saber
Onde em mim
Não está machucado...

Dói
Pensamentos,
Ausências,
Despedidas,
Lágrimas,
Saudades,
Dói olhar para os lados e não ter você
Aqui para me sentir seguro.

De gigante
Me sinto um anão
Querendo um colo para descansar
A cabeça pesada
E só levantá-la
Quando a tempestade passar,
Proteção...

Força
É preciso tê-la sempre
Para poder caminhar
E não apagar a chama da vida
Nem a esperança de dias melhores,
Floridos e com sol.  

Não temer os caminhos,
Nem os desígnios dos deuses
É uma tarefa para quem tem fé
Encontre a sua
Ponha no bolso e siga adiante
Sem descuidar dela
E de você.
A minha ficou perdida
Em algum bolso da calça
E não a encontro mais.

Paciência!
A vida é assim, segue seu rumo
E a nossa tarefa é encontrar o nosso
Para também seguir
E deixar para trás
A sensação de que está
Parado
Na estação de trem
De malas nas mãos
Enquanto ele vai embora
Vazio.


Allex Borges
Juiz de Fora, outubro de 2011

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Qualquer um


Pode demorar dias, talvez meses
Ou quem sabe longos anos
Para que a gente tome pé da nossa vida,
Mas um dia ele chega.
É aquele em que a gente se olha no espelho
E diz: basta!!
Não quero mais
É hora de mudar,
Reinventar
Ou eu mudo agora
Ou o mundo me engole.

E a transformação acontece já ali
Numa mudança de postura diante da
Vida e de você.
Mudar implica acima de tudo
Em ajustar o foco, o olhar
De si e do que está a sua volta
E seguir em frente
Fazendo do passado
Uma referência positiva para o seu crescimento
E sua maturidade
Do presente uma costura
Entrelaçada entre o que é e o que estar por vir.

E quando a mudança acontece
Você passa a querer viver as coisas por inteiro,
A não se contentar mais em estar pela metade
Ou incompleto.
Caso contrário,
Tudo se tornará muito pouco
Diante do que a vida pode nos proporcionar.
Por isso, ando cansado de muita coisa
E uma delas é que
Cansei de ser visto como qualquer um,
E deixar que os outros me tratem
Como qualquer um
Ou de me portar qualquer um.

Cansei de querer saber o que pensa o outro
Pois é muita responsabilidade
Assumir essa tarefa.
Do outro nada sei
E quero poder me dá essa opção de recusar,
De não saber.
Sei apenas o que me dizes,
Nada mais.

Em relação a nós
Não sei o que eu quero,
Sei apenas o que eu não quero
E cheguei à conclusão
De que você não serve para fazer parte
Do que sou,
És fraco.
A fraqueza é desprezível aos meus olhos, 
Prefiro os fortes
Pois eles são capazes de nadar oceanos,
Segurar a barra quando ela pesar
E não se afogar na primeira poça d’água
Assim como os fracos,
Assim como você.

Os ventos que sopram para os lados daí
Também passam por aqui
Eles podem até ser diferente na forma,
Mas na intensidade,
Não tenho dúvidas,
Que são os mesmos.

Fica com suas histórias e com seus medos
Porque eu tenho pressa de viver
Coisas reais
E estou de partida
Para me jogar nos braços da vida.
Chorar, sorrir, decepcionar-se, esperar
Isso não me assusta mais,
Afinal já vivi tudo isso ao seu lado.
Não me procure mais,
Nem telefone,
Nem mande mensagem
Estou fora de área para qualquer atitude
Que venha de você.

Não sou qualquer um
E não vou deixar que você me trate assim.
Não sou igual àqueles com quem você
Está acostumado a se relacionar
Com intuito de inflamar seu ego
Para esconder as suas fraquezas
E suas carências.

Eu sei que eu quero da vida
Enquanto você
Bom, enquanto a você
É problema seu.  
Estou ocupado demais
Tentando conquistar os céus.
Desculpe-me
Agora preciso voar.

Allex Borges
Juiz de Fora, outubro de 2011