Não aguento mais, quero ir embora!
Nossa! Não suporto mais ficar aqui.
Tô com saudades de casa,
Quero ir embora.
Engraçado, não?!
Pois é, parece que foi ontem
Que essas palavras se repetiam
Incansavelmente
Por bocas de gente de todo canto,
De todo lugar ao pisar em solo viçosense.
Algumas vindas de muito longe,
Cruzando fronteiras,
Mares,
Outras nem tanto assim.
Umas vieram a pé,
De camelo,
De bumba
Experimentando o sabor da poeira
Da estrada,
Com uma mala cheia de medos
E expectativas
E algumas mudas de roupa.
Outras aterrissaram de pára-quedas
Trazendo consigo o sabor das nuvens
E a liberdade dos céus
E uma vontade grande de conquistar
O inesperado.
Também tinha aquelas que aqui já estavam,
Bocas nativas,
Acanhadas
Saboreando o sabor da novidade
E a troca de hábitos, desejos e sonhos.
Do encontro de tantas bocas
Cresceram a fé na vida
E juntos compartilhamos tantas anseios,
Loucuras e devaneios
Que nos marcará para sempre
Como um sinal de felicidade
E de vivacidade.
Éramos um bando,
Uma trupe,
Éramos parceiros
E o que nos unia e nos tornavam fortes
Era o fato de que viemos todos em busca de novos mares
E de novos portos para atracar.
Da vida conhecíamos pouco,
Por isso não desgrudávamos dos cadernos
Com o intuito de aprendermos todas as lições
Que a vida nos proporcionaria estando ali.
Os dias se passaram,
Passaram anos,
Greves,
Nico Lopes,
Jarbinhas, Galpão e Leão
Jarbinhas, Galpão e Leão
Fábrica de Festas, Betinho,
Lanches Lú, pastel na feira nas manhãs de sábado
E o cachorro quente do Sô Nenzito na praça da prefeitura,
Passaram os shows no Recanto das Cigarras
Cenários onde vivemos e experimentamos grandes emoções,
Histórias para serem contadas em uma vida inteira
Tomadas por uma experiência universitária
Única e personalística,
Mas chegou o momento de partir,
Agora somos nós que passaremos
Para ceder lugar às novas bocas,
Novas lágrimas,
Novos sorrisos.
Hoje fica a certeza que conseguimos
O que a princípio nem sabíamos
O que viemos buscar quando aqui chegamos.
Esperança no amanhã
Nunca nos faltou
Fazia-se presente
Do nascer ao pôr-do-sol,
Nos fazendo vivos,
Nos deixando fortes.
Horizontes foram conquistados,
Diploma debaixo do braço,
Sonhos realizados,
Renovados.
Um nó na garganta,
Lágrimas que brotam dos olhos,
Pois cruzamos a linha de chegada das 4 pilastras
E dizer adeus tornou-se algo
Inevitável.
Nos bancos da universidade,
Aprendemos a ser profissionais
E no da vida, aprendemos a ser gente
Para trilharmos as estradas da vida
De mil encantos
E tantos desencantos,
Amores
E desamores,
Dissabores.
E conquistar o lugar que está reservado
Pra nós.
Por mais que a gente mude o nosso cenário-vida
Que os holofotes não estejam focados em nós,
Que não sejamos mais o alvo dos clicks da Kello
Que não haja mais palco e nem platéia
Que a ribalta esteja em silêncio
Ainda assim estaremos brilhando incandecidamente
Seja no coração que carregamos ao peito,
Que agora está tão pequeno
Seja nas recordações que carregaremos conosco
Ao lembrarmos-nos da UFV,
Ao voltarmos ao seu campus,
Ao reler nossa biografia no livro empoeirado
Esquecido na estante
Ou em nossas fotografias
Que foram várias, que são válidas
Documentando uma época,
Uma juventude,
Um sorriso
Que não voltará mais,
Mas permanecem intactos
Em nossa memória.
Se não vivemos tudo estando aqui.
Se não vivemos tudo estando aqui.
Vivemos o suficiente para nos transformar
Em quem somos hoje.
A única coisa que eu me arrisco a dizer
É que de tudo ficou a certeza
Que nada será como antes,
Nada.
Allex Borges
Viçosa, março de 2003