sábado, 8 de outubro de 2011

O fundo do mar


Mar meu, mar teu, mar que é nosso
Mar que não é meu, que não é teu,
Mar que não é nosso.
Mar vivo, mar morto, mar pacífico
Mar que é encantado, que é sublime,
Mar que não é má.
Mar que é amor, mas mar que não é amar.
Amar é como mergulhar no mar,
Que não é mar, mas há o que navegar
Sem medo de se afogar.
Não há o que molhar só chegar,
Chegar ao além-mar.
Chegar ou ficar no mar,
No mar a boiar
Boiar e voar
Os céus a cruzar
E estrelas a encontrar.

Por isso navegar é preciso
Ainda que se corra o risco
De morrer no mar,
Caso aconteça, não será dor
Pois é doce morrer no mar.

Há o que beijar, se amar e cair no mar
Ir bem fundo, no fundo do mar,
E aí verás que não é mais fundo
O fundo do mar agora é frente,
A frente do mar.

É preciso ser fascinado pelo fundo
Para encontrar a frente,
A frente do mar.
É fundamental esquecer a frente
E buscar o fundo,
Não o do mar,
Mas o nosso
Para podermos amar
Amar sem estética
Amar por amar.

Há que amar,
Que não odiar
Há o que chorar,
Chorar por não amar,
Por não encontrar com o mar
Não ver o fundo,
O nosso e o do mar.
Por não cruzar os céus
E cair no mar.
Por um coração generoso não boiar
Para que se possa encontrar.
Encontrar e sonhar 
Sonhar com o fundo,
Não o nosso,
Mas com o fundo do mar.

Há o que se deliciar,
Não com o fundo,
O fundo do mar
Mas com o amar,
O amar dos corpos quentes
E nus a se encontrar.
Há o que viver
E se encontrar
E no mar se jogar,
Saldar Iemanjá
E não parar no fundo,
No fundo do mar
Mas sim pairar,
Pairar em cima
Do mar.

Allex Borges
Viçosa, abril de 2000

 

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