Alexandro Borges
“Toda manifestação simbólica tem seu valor e não deve deliberadamente
ser extinta ou anulada” (Giancarlo Kind Schimid).
Muitas coisas nos são contadas ao longo que vamos crescendo,
principalmente pelas nossas avós, grandes guardiãs da memória das famílias, dos
costumes e das tradições. Algumas histórias ficam presas no nosso imaginário
pessoal e social e vão se transformando em regimes de verdade. Quem nunca andou
com um trevinho de quatro folhas, um galhinho de arruda atrás da orelha ou
entrou em casa com o pé direito?
Pois bem, essas são algumas das
superstições que fazem parte do nosso processo de socialização e estão cada vez
mais presentes no imaginário social. Sem dúvida, o que consagra as superstições e
as colocam no campo privilegiado das crenças é o medo que temos do desconhecido
aliado à insegurança da vida. “São nas experiências do dia-a-dia, nos sucessos
e nos fracassos que se fazem notar o imbatível otimismo do ser humano, em
outras palavras, sua vontade de acreditar. Desde tempos remotos os fenômenos da
natureza, o respeito pela vida e morte e a não compreensão de determinados
eventos naturais e físicos contribuíram para a criação de lendas, mitos e crendices”
(SARTORATO, Camila).
As superstições
assumem sempre um caráter defensivo, protegendo-nos de uma energia negativa, ou
seja, realizada para evitar um mal ou algo não desejado e/ou trazer bonança e
positividade. “Etimologicamente, a palavra superstição vem do latim superstes, que dentre os muitos
significados, inclui o de sobreviver. A origem das superstições é incerta, mas
existem três principais fatores responsáveis: a religião, o folclore (ou lendas
e mitos) e os aspectos culturais de um povo. O primeiro é responsável pelas
crendices, manifestadas a partir do temor ao demônio e bruxas, durante a Idade
Média” (Ibid).
Nesse cenário, os
amuletos despontam como um dos principais aliados e se transformam em adornos e
jóias, sinais exteriores de fé e de proteção. “São objetos de defesa, ao qual
se atribui a virtude de afastar malefícios e trazer boa sorte, como a figa, um
ramo de arruda, olho, búzio, trevo, ferradura. O talismã tem a mesma finalidade
do amuleto, mas é feito especialmente para determinada pessoa, e só a ela irá
defender” (GASPAR, Lucia, 2010).
Para além desses
amuletos, existem os banhos com ervas e rituais que "limpam" o
ambiente, o corpo dando-lhe resistência e proteção pessoal. Sem dúvida, uma boa
parte de nossas superstições tem raízes fortíssimas na Mãe África e aqui foram trazidas
por nossos ancestrais,os negros.
As superstições não
necessariamente estão imbricadas com algo que produza medo ou defesa de algum
mal, existem as que fazem parte dos nossos rituais cotidianos como as realizadas
no Ano Novo, nas festas juninas, os três nós na fitinha do Bonfim, ou a criança
jogar o dente de leite no
telhado para obter dentes fortes.
É fato que as superstições são um
fenômeno universal e se fazem presentes em todas
as sociedades estudadas. Por exemplo, “As superstições
ligadas à gravidez e ao parto são muito antigas e têm uma grande importância na
vida dos povos. Os filipinos acreditam num espírito maligno que perturba o
parto, tornando-o penoso. Os húngaros costumavam atirar pó sobre a cabeça da
parturiente para afastar os maus espíritos. Em algumas tribos africanas havia a
crença que a mulher grávida não devia acompanhar enterro porque a alma do morto
poderia encarnar no bebê. Entre os índios da Amazônia, as mulheres,
principalmente quando estão grávidas, não devem assistir ao preparo do curare
(veneno), não podem pegar na caça e nas armas. Não podem comer paca, pois do
contrário não conseguiriam dormir” (Ibid.).
De
norte a sul do país, temos superstições que se reeditam, se transformam, se
reproduzem, mas todas trazem em si a mesma essência, em sua maioria, servem
para intimidar ou alertar. “Assim como é muito mais seguro recorrer às
previsões meteorológicas oficiais, do que arriscar um palpite, antigamente,
também, as profecias eram deixadas por conta de pessoas as quais se supunha
dotadas de conhecimentos especiais” (SARTORATO, Camila). De acordo com Schimid
algumas crenças se estabeleceram de tal forma, que deram origem a personagens
fictícios como os vampiros (que não suportam água benta, a cruz santa, alho, a
luz do sol e a Bíblia), e a do lobisomem (que se transforma na Lua Cheia, só é
morto com balas de pratas, e é fruto do sétimo filho varão de uma família só de
homens).
É sabido que ninho de beija-flor em
casa é sinal de fertilidade e felicidade. É acreditando na nossa fertilidade e
felicidade que a família Beija-Flor navega pelo mar das superstições e traz
para a passarela do samba um enredo irreverente e cheio de magia encantando a
todos(as) amantes de um bom samba, da nossa escola e da Marquês de Sapucaí. Nas
asas do beija-flor voa a nossa imaginação e traz para o maior espetáculo da
terra a nossa força com ajuda para mais um desfile soberano com a benção dos
deuses.
Bibliografia:
GASPAR, Lúcia.
Superstições e crendices. Pesquisa Escolar On-Line, Fundação Joaquim Nabuco,
Recife. Disponível em: <http://www.fundaj.gov.br>.
VIEIRA FILHO,
Domingos. O mundo das superstições. São Luiz: Departamento de Cultura do
Estado, 1963.