quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Devolva-me

Estou me sentindo estranho,
Mas estou bem.
Amanhã será um novo dia
E eu vou me esquecer de você.
Já mandei entregar seus pertences
No endereço que deixou no bilhete
Pregado na porta do quarto,
Agora, devolva-me o que me pertence.
Devolva as chaves,
Devolva-me meu sorriso,
Devolva-me meu coração
E vá embora
Sem se despedir.

Parte de uma vez só
E me deixa aqui por inteiro
Será melhor para nós
Eu sei
Sobreviverei à catarse
Do nosso encontro.
Andarei só,
Mas não estarei sozinho
Quem ama a vida nunca está só.

Abro mão das lembranças,
E de um tempo que eu amei
Por nós
E te perdoei.
Agora não dá mais,
Basta!
Não quero mais
Esse amor que insiste em me dá...
É pouco,
Frio.
Eu quero é mais,
Muito mais.

Saia e não olhe para trás,
Fecha a porta da casa,
Em silêncio
Fecharei a porta da minha vida
Para que não entre mais.
Não te quero desse jeito,
Não!
Não quero!
Não posso ter mais você,
Vai...
Desaparece!!
E não olhe mais para trás.
Porque eu não estarei mais aqui
A te amar.

Allex Borges
Juiz de Fora, Setembro de 2011



domingo, 18 de setembro de 2011

Maria-Rosa


Faltam poucos dias para a chegada da primavera,
Para os campos se pintarem de cores
E uma das rosas mais preciosas
Pertencente ao jardim florido da vida
Hoje a tarde foi cultivada para ser entregue a Deus
E, em romaria, aos pés de Bom Jesus da Lapa
Ela foi oferecida. 

Foi assim sem antes avisar
Desabrochar nos campos límpidos
Dos céus.
E conosco ficaram as lembranças
De um tempo
Que passamos a apreciá-la
Junto a nós,
No nosso convívio.

Nessa noite traiçoeira
Deitamos e o sono não veio
Ficamos a espera de tua benção,
Pelo café do fim da tarde,
Pela água no copo de alumínio
Mas você foi embora.

O dia amanhece,
Ouço o cantar dos pássaros,
O cair das águas na barragem
Mas não escuto você me chamar,
Nem o arrastar do teu chinelo pela casa
Que agora está vazia...
O coração aperta dentro do peito,
As palavras nos fogem a boca
E o nó na garganta não quer desatar...

Era Maria Borges
Entre todas as Marias,
Que nos esperava à porta
Tão cheia de graça,
Com olhos de compaixão
E sorriso de menina,
Que o tempo não foi capaz
De apagá-lo,
Para nos entregar o que tinha de melhor
O seu carinho
Traduzidos em beijos e afagos.

Sei que das letras conhecia pouco,
Mas foram inúmeras as lições que nos ensinou,
Aprendizagem de toda uma vida
De força e de fé,
De humildade e de amor.
Maria tu foste à escolhida
Para abraçar a Deus nesse momento
E, por isso, a separação é inevitável,
Machuca,
Dói,
Silencia,
Deixa saudade
Mas fica a certeza
De dever cumprido,
De filho criado,
De família abençoada,
De muda plantada.

Você saiu de cena,
Mas não sairá dos nossos corações
E de nossas lembranças.
Maria,
Minha mãe, minha avó, minha tia,
Minha rainha,
Adeus Maria
Chegou a hora
Até um dia...


Allex Borges
Juiz de Fora, 15 de setembro de 2011

 

sábado, 10 de setembro de 2011

A dor de amar

Doeu demais te amar,
Passar as noites em claro
Pensando em você,
Atormentado pela saudade
E pela vontade de estar ao seu lado
Para depois vê-lo sair da minha vida
Sem se despedir,
Como se fosse um estranho
Sem costurar as rachaduras
Deixadas por tua passagem em minha vida.

Doeu ainda mais
Perceber que eu não tinha
Um lugar na sua vida
Como eu imaginava ter,
Um sentimento que não
Despertou em você
Para além do desejo da cama,
Já em mim trasbordou
E me fez acreditar que
Daríamos certo,
Acreditei sozinho.

Não só perdi você,
Mas tudo aquilo
Que eu acreditava
Que poderia existir
Entre nós
E nos tornavam íntimos,
Cúmplices,
Amantes.
Tudo aquilo que um dia
Poderia ser a nossa vida
Foi-se embora,
Virou poeira.

Ficaram as lembranças
Que chegam a machucar,
A sangrar
Como se fosse cacos de vidros
A perfurar os meus pés,
Os pés dos meus sonhos.
Até hoje seria capaz de descrever
Com detalhes
Todos os momentos que estivemos juntos.
Foram tantas às vezes
Que eu te pedi para ficar
Na minha vida,
E você prometeu
Que não partiria.
Promessa quebrada
Realidade que magoa
Expectativa frustrada.

Queria ter ouvidos tantas coisas,
Sentido outras tantas
Mas você preferiu sair por aí
A se aventurar na vida,
A desafiar os desejos.
Eu ficarei aqui
Acreditando nas coisas
Que você desdenhou,
Mas para mim
Faz muito sentido.  

Corri tantos riscos por você,
Pelo que eu acreditava ser
O nosso amor
E agora eu me pergunto
Para quê?
Talvez nem pense mais em mim,
Nem reconheça tudo
O que fui capaz de fazer por nós.
Mas eu ainda não esqueci você
Preciso fazê-lo
Mas esquecer você
É também esquecer como se ama.

Então, não quero mais amar
Ando cansado,
Cabeça pesada,
Coração bombardeado.
Fico por aqui,
Não dá mais para continuar.

Esperarei a noite chegar
E que venham as estrelas
Para me guiar rumo a algum lugar
Que faça eu me perder
De você   
E assim me encontrar outra vez.
No momento só tenho a desejar-te
Sorte!
Segue o seu caminho
Eu ficarei bem.

Allex Borges
Juiz de Fora, setembro de 2011

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Tua imagem

Noite estrelada,
Uma lua insana lá fora
E eu sem sono
Fico a rascunhar
A tua imagem em cada parte de mim.

Passo horas imaginando
Os traços que o teu rosto carrega,
A cor dos seus cabelos,
Seus olhos,
Os contornos dos teus lábios,
O tom do teu sorriso
Da tua voz.

Virou rotina
Percorrer as ruas, desolado,
Observando atentamente os transeuntes
Numa tentativa de materializar a tua figura,
O teu existir,
Para além do esconderijo dos meus pensamentos.

O tempo passa
E chego a perder a noção das horas,
De mim mesmo
Ansioso para te ter por perto,
Para te fazer por perto.

Não sei onde mora,
O que faz para sobreviver
E com quem compartilha seus dias
No momento
O que acaba gerando um ar
De incerteza e de apreensão
Que vou ter que suportar
Se eu quiser mesmo
Esperar por você...

Não sei mais viver o presente,
Sem projetar um futuro
De casa, comida e escovas
De dente juntas.
Sem deitar na cama
E não desejar a tua presença
Ao meu lado.

Caí uma estrela,
Fecho os olhos
E faço um pedido...
Paciência,
Agora é o momento
Da espera.
Planta-se a semente
Para poder usufruir de uma colheita futura.
É preciso ter fé
E confiar que é predestinado
Para mim.

Ando atento aos sinais
E sei que estás a caminho
E isso já é obstante para que eu tenha
Confiança e serenidade que um dia haveremos
De nos encontrar

E assim viver uma felicidade
Que supere todas as expectativas
De um encontro a dois,
De um sexo condenado a ser de muitos
E construir um amor que sobreviva
A toda intempérie humana
De ódio e rejeição que possa nos destruir
Por amar e viver de um modo diferente.    
Aconteça o que acontecer
Eu estou aqui a te esperar...

Allex Borges
Juiz de Fora, setembro de 2011

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Invasão


Um nó na garganta,
Um peito apertado,
Uma alma angustiada,
Dias nublados,
Cinzas
É assim que me sinto
Desde aquela noite
Que invadiram minha casa
E reviraram tudo o que tinha lá dentro
Levando embora o seu retrato da parede,
O último que eu ainda tinha
Por lá.

Por tudo de volta aos seus ‘lugares’,
Catar os cacos que se perderam
Pelos caminhos
Não é uma tarefa das mais fáceis,
Mas é necessário
Para se recompor outra vez,
Para por a casa em ordem,
Em pé
E voltar a caminhar.

Já não sei mais o que sinto,
As lembranças estão embasadas
Preciso de um tempo
Para a poeira assentar
E eu me sentir vivo outra vez.
Estou aprendendo a ser só,
Após um longo período
Andando a dois,
Estou a resgatar o brilho que me levaram,
O sorriso que desbotou
A confiança que adormeceu.
Um momento de
Despertar...

Podem ter me levado tudo embora
Mas restou ainda a minha dignidade
E minha vontade de ser feliz
E disso não abro mão,
A de ser feliz.

Agora vivo sem certezas,
Apenas com convicções
E uma das que trago comigo
É que a cada momento vivido
Tem sabor de recomeço,
São novas linhas escritas no livro da vida,
Novas tintas, novas cores
Novos desejos
Marcados na pele...

Fecha-se um ciclo
Para abrir-se outro.
A esperança se renova,
Os amores são recriados,
Repaginados
Apenas a vontade de ‘dá certo’
É que continua intacta
Impulsionando-nos a novas histórias
E reafirmando a premissa
De um viveram felizes para sempre
Seja real
Em nossas vidas.

Acreditar,
Sim!
Acreditar que é possível amar,
Acreditar em si.
Acreditar no amor
Que ele vem cheio,
Acreditar sem medo
E permitir a amar
Sempre.
Amar sem pudor,
Amar na dor,
Amar e crê no amor
Que ele será  
Indolor.


Allex Borges
Juiz de Fora, setembro de 2011

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Mar...ina


Mar...ina de mil encantos
Que embala nossos sonhos
Encharcando a alma
De cor, luz e estrelas.

De estrelas do céu,
De estrelas do mar.
És linda, és deusa
Uma menina deusa.
Agora, uma deusa mulher
Ou seria uma heroína menina
Ou uma sereia Marina?!

Tua voz é sinônimo de doçura e força
Atada ao pulsar do seu violão
Cujo som ultrapassa todas as barreiras
Tocando nossos corações,
Violão de uma corda só,
E de todos àqueles que te ouvem cantar
E se emocionam...

Voz, beleza, candura
Uma melodia perfeita.
Você uma brisa do mar,
Uma brisa chamada Marina
Marina sereia
Aquela que enche os mares com o seu cantar,
Aquela que nos encanta com seu cantar,
Com seu olhar.

Mar..ina de Gustavo, Felipe, de Ione e Lelé.
Tu és linda, tu és alma.
Tu és alma de menina,
Tu és vontade de amar.
  
Allex Borges
Viçosa, junho de 2004

Chão

Tu és terra.
Terra que te quero nossa,
Que te quero viva,
Que te quero verde.

A te confio o meu viver,
Em tuas covas quero plantar
Meus sonhos
E não enterrar meus anseios.
Irrigar teu ventre como o suor
Que derrama do rosto
E não com o sangue que derrama
De um corpo de um trabalhador.

Proteger-te com o calor das minhas mãos,
Grossas e cheias de calos na verdade,
Mãos de um guerreiro,
Brasileiro e lutador
Que com a mesma garra que pega
No cabo da enxada
Trava uma batalha com a seca,
A fome e a miséria
Material e simbólica
Presente na trajetória 
De muitos de nós
Para a nossa sobreviver.

Sobrevivência nutrida por sonhos
E pela fé que não há de faltar
Na colheita de teus frutos,
Frutos de luz e de vida.
De onde proverá a força
Para pisar esse chão
E possibilitar o triunfo de nossos passos,
Passos que se perdem na poeira
Dos caminhos feridos por
Pedras, cruzes e mandacarus.

Em teu seio
Marcado por uma trágica realidade
De cercas e arames
Rasga também a nossa pele
Em busca de um canto para
Sossegar e encontrar nosso alento
Do nascer da lua
Ao repousar do sol.

Se viemos do pó,
Como escrito nas escrituras,
Que nosso Criador
Tenha compaixão de todos nós
Que encharcam esse chão seco
Com suas lágrimas de dor e desespero
Conduza-nos a justiça
De dias melhores,
Livrais-nos do sacrifício da morte por fardas,
Do fogo que consome,
Nossas forças, nosso brilho
Ainda estando vivos.

Nossas raízes estão cravadas
No chão da Reforma Agrária
Que caminha a passos lentos,
Mas cresce a todo instante
No olhar dos corações
Das pessoas que não perderam sua confiança na terra
E traz consigo a vontade de ser feliz.

Allex Borges,
Muriaé, outubro de 1999