sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Chão

Tu és terra.
Terra que te quero nossa,
Que te quero viva,
Que te quero verde.

A te confio o meu viver,
Em tuas covas quero plantar
Meus sonhos
E não enterrar meus anseios.
Irrigar teu ventre como o suor
Que derrama do rosto
E não com o sangue que derrama
De um corpo de um trabalhador.

Proteger-te com o calor das minhas mãos,
Grossas e cheias de calos na verdade,
Mãos de um guerreiro,
Brasileiro e lutador
Que com a mesma garra que pega
No cabo da enxada
Trava uma batalha com a seca,
A fome e a miséria
Material e simbólica
Presente na trajetória 
De muitos de nós
Para a nossa sobreviver.

Sobrevivência nutrida por sonhos
E pela fé que não há de faltar
Na colheita de teus frutos,
Frutos de luz e de vida.
De onde proverá a força
Para pisar esse chão
E possibilitar o triunfo de nossos passos,
Passos que se perdem na poeira
Dos caminhos feridos por
Pedras, cruzes e mandacarus.

Em teu seio
Marcado por uma trágica realidade
De cercas e arames
Rasga também a nossa pele
Em busca de um canto para
Sossegar e encontrar nosso alento
Do nascer da lua
Ao repousar do sol.

Se viemos do pó,
Como escrito nas escrituras,
Que nosso Criador
Tenha compaixão de todos nós
Que encharcam esse chão seco
Com suas lágrimas de dor e desespero
Conduza-nos a justiça
De dias melhores,
Livrais-nos do sacrifício da morte por fardas,
Do fogo que consome,
Nossas forças, nosso brilho
Ainda estando vivos.

Nossas raízes estão cravadas
No chão da Reforma Agrária
Que caminha a passos lentos,
Mas cresce a todo instante
No olhar dos corações
Das pessoas que não perderam sua confiança na terra
E traz consigo a vontade de ser feliz.

Allex Borges,
Muriaé, outubro de 1999

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