terça-feira, 30 de agosto de 2011

Sombrio

Começa o dia e o sol já desponta lá fora
Colorindo e dando luz a paisagem
E aqui dentro um dia cinza e sombrio
Se apresenta num pesadelo sem precedente,
Numa realidade
De olhos arregalados.

Sangro em silêncio,
Uma dor sentida na alma,
Lágrimas sofridas,
Amor golpeado,
Vida sacrificada.

Sangro a vitalidade de um viver
Que se suicidou numa noite insana,
Ao futuro que não vem mais,
Aos sonhos desfeitos,
A esperança abortada,
Ao brilho que se apagou
Deixando tudo em preto e branco,
A sentença de um coração
Que foi aprisionado a uma sombra
Que não adormece nunca.

Agora fico a pensar em tudo o que foi vivido
Desde que nos conhecemos
E foram tantas as escolhas
E você  optou, justamente, por aquela
Que partiria de uma vez só 
E levaria consigo tudo embora
Da minha vida.

Tanto vez que conseguiu.
Estou me sentindo vazio,
Como se estivesse oco por dentro.
Um vazio sem diâmetro
E de uma profundeza incomensurável.
Como se alguém tivesse metido a mão
Goela abaixo
E arrancado tudo o que tinha lá
Dentro de mim,
De uma vez só,
Sem avisar,
No susto.

Agora fique assim
Desamparado,
Perdi meu chão
E fiquei sem saber onde pôr os pés
E descansar a cabeça.

Sofri pelo que já se foi
E também pelo que poderia
Ter sido
Mas hoje a dor é bem maior
E insuportável,
Sofro por ter perdido
Uma parte do que eu conhecia de mim.

Nada será mais como antes,
Por mais que eu me esforce
Não será mais,
Estou pela metade,
Com o que sobrou
De mim.

O que nos aguarda o futuro?
Sei lá, não faz mais tanta importância
Sei que sangro agora, para poder brotar amanhã.
Choro para (re)aprender a  sorrir.
“Errei” para poder acertar lá diante
E agradeço a chance de poder recomeçar limpo
A viver um dia de cada vez
Sem medo do que estar por vir
Nem do que está reservado para mim.

Superação, reabilitação
Persistência e vigília
São palavras que estarão sempre presentes
Como um kit-sobrevivência
Tanto para mim
E, acredito, que até muito mais para você.

Por algum tempo
Os dias serão de luto
E as incertezas da vida
Poderão se tornar em certezas diárias,
Mas a minha vontade de continuar
Será sempre maior.


Allex Borges
Juiz de Fora, agosto de 2011
Um dia difícil, de descobertas difíceis, mas é preciso seguir sem temer. Fé e força sempre.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Falta

Há dias que não nos vemos
Estávamos tão próximos ultimamente
Fazendo planos para o futuro
Meu, seu, nossos.
Rindo de tantas ‘bobagens’
Ensaiando cenas
De sentimentos novos
Tanto para mim,
Que sou veterano,
Quanto para você,
Que é iniciante.

Mensagens diárias, subtendidas.
Telefonemas carinhosos,
Olhares inquietantes
Deixaram-me mal acostumado.

Penso em você para aliviar
A saudade
E fico a imaginar
O que anda a fazer
Sem me ter por perto.

Ainda não aprendi a ler o seu olhar
Mais gosta do modo que me fita.
Têm momentos que eu quero
Por você no colo
E outros na minha cama
E saciar toda a testosterona
Que esse encontro é capaz de provocar.

Tocar esses lábios macios
Que aguça minha vontade
E meu desejo de provar
Cada sabor do seu beijo.

Tocar seu corpo
E cada músculo que ele evidencia.
Sentir seu cheiro e o seu calor
Agarrado em conchinha
Num lugar só nosso.

Sei que daqui uns dias
Estaremos juntos outra vez
E espero que esse tempo longe
Seja capaz de revelar a importância
Que ocupamos um na vida do outro.
E o sentimento que nos une
Receba outra maquiagem

E assim sejamos suficientemente
Corajosos para vivê-lo
Independente da censura
E dos olhares caluniadores.
Que sejamos destemidos
E insanos diante do desejo
Que aflorou entre sorrisos,
Encantos e admiração mútua.

Mas se tu acovardares  
Também saberei entender
Talvez ainda tenha muito que amadurecer,
Talvez não
Vamos deixar o tempo correr  
O meu e o seu
E se a nossa vontade for maior
Do que as nossas limitações
Seremos juntos desejo, sorrisos e coração.

De imediato não há muito que fazer
A não ser esperar para ter você
Sorrindo e sonhando
Aquecido pelos meus braços,
Mas, por enquanto
Fico aqui sentindo a sua falta.


Allex Borges
Palmeirinha, agosto de 2011

terça-feira, 23 de agosto de 2011

A janela


Sentado na janela do meu quarto
Fico a contemplar o sol a se espreguiçar,
Ouço o cantar dos pássaros
E os suspiros das árvores.

Vejo crianças a brincar
No jardim inacabado da praça
Lavadeiras entoarem seu canto
Em direção ao Rio de Contas,
Beatas apressadas indo em direção à igreja
Vejo garis, aposentados, amigos e apaixonados,
Vejo gente.

Sinto a brisa me tocar,
Mexer com meus cabelos
E meus pensamentos.
O meu coração esquenta aos poucos
E os meus olhos reluzem-se
Com o dia claro que faz agora.

Por um instante
Minha atenção foi visgada
Por uma cena:
Uma folha de amêndoa
Caída na calçada,
Uma folha caduca ao certo,
Cansada, desbotada,
Fragilizada
Estava perdida.
Era conduzida pelo vento
Sem rumo, sem direção
Sem destino certo.

Atentava para aquela cena
Como uma criança atenta
Para a mesa do bolo de aniversário
E fiquei a pensar:
Como deve ser triste  ter a sua vida
Guiada pela vontade dos ‘outros’
E não por suas vontades.

Em seguida um aperto,
Uma lágrima salta aos olhos,
Mais outra lágrima
E um choro de desabafo
Pois a folha era eu
E, até então, ainda não sabia.

Allex Borges
Palmeirinha, 11/08/98