Sentado na janela do meu quarto
Fico a contemplar o sol a se espreguiçar,
Ouço o cantar dos pássaros
E os suspiros das árvores.
Vejo crianças a brincar
No jardim inacabado da praça
Lavadeiras entoarem seu canto
Em direção ao Rio de Contas,
Beatas apressadas indo em direção à igreja
Vejo garis, aposentados, amigos e apaixonados,
Vejo gente.
Sinto a brisa me tocar,
Mexer com meus cabelos
E meus pensamentos.
O meu coração esquenta aos poucos
E os meus olhos reluzem-se
Com o dia claro que faz agora.
Por um instante
Minha atenção foi visgada
Por uma cena:
Uma folha de amêndoa
Caída na calçada,
Uma folha caduca ao certo,
Cansada, desbotada,
Fragilizada
Estava perdida.
Era conduzida pelo vento
Sem rumo, sem direção
Sem destino certo.
Atentava para aquela cena
Como uma criança atenta
Para a mesa do bolo de aniversário
E fiquei a pensar:
Como deve ser triste ter a sua vida
Guiada pela vontade dos ‘outros’
E não por suas vontades.
Em seguida um aperto,
Uma lágrima salta aos olhos,
Mais outra lágrima
E um choro de desabafo
Pois a folha era eu
E, até então, ainda não sabia.
Allex Borges
Palmeirinha, 11/08/98
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