quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Invenção

Tenho inventado amores
Para me distrair
E a cada invenção descabida
Vivencio a possibilidade
Da permanência de um sentimento
Para além de uma noite,
Um sentimento suficientemente capaz
De preencher um vazio latente
Que cresceu dentro de mim
E se transformou num abismo,
Sem que me desse conta,
Entre eu e os ‘outros’.

São planos, sonhos, aspirações
Expectativas inventadas
E postas em malas
Prontas para embarcar numa ‘nova’ viagem
Com passagem só de ida
Num mar de ansiedade e surpresas
Em busca de um sentimento sincero e real.

Mas, muitas vezes,
A embarcação afunda
Ainda atracada ao caís
E diante do naufrágio de expectativas
Ficamos atônitos sem saber
Por onde começar a nadar
E morre-se a esperança
Ali mesmo, no ponto de partida
E tudo se esvai num piscar de olhos.

Então percebemos que todo investimento feito,
Todo o esforço desprendido
Não passou de um comportamento imaturo
Diante das idealizações que se faz para toda uma vida
E que é um fardo pesado
De se carregar
E de cumprir.

Inventar amores
É perverso ao coração,
Principalmente porque se vive numa época
Dos amores líquidos, fluídos.
(Des)inventar amores é sinal
De maturidade numa tentativa
De encontrar alento aos dias
Que nos sentimos sós e tão pequenos
Seja em busca de um colo,
Ou na busca por um abrigo,
Ou na espera de um amor
Que nunca vem...

Espera-se que o (des)inventar de sentimentos
Não seja nocivo aos sonhos
Afinal, o cotidiano se apresenta, 
Em muitos momentos de nossas vidas,
Como cinza e cruel
Nos obrigando a possuir uma válvula de escape
E nessas horas
As invenções e as ilusões
São imprescindíveis para nos mantermos
Em pé,
Para sentirmos vivos.

Enfim, que nossas invenções
Não nos destrua
Nem nos transforme em Alices
E nem secos,
Mas conscientes de nossas atitudes
Estabelecendo o equilíbrio
Entre o real e o inventado
Para que a gente nas se perca
Pelos caminhos a fora.


Allex Borges
Juiz de Fora, agosto de 2011





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