Sinto-me como uma
Pena branca
Carregada pelo vento
Que lentamente caiu
Sobre uma
Escrivaninha Maria Antonieta
Empoeirada no canto
De uma sala escura.
Entre livros, tinteiro,
Papéis soltos, óculos,
Uma xícara de porcelana
De chá vazia
E pó
Abandonada
Lá estava eu.
Certamente esse cenário estava ali
Já há algum tempo
Deixado por alguém que saiu às pressas
Para não demorar
E nunca mais retornou
De lá.
Os dias se passaram,
Nada se moveu,
Mas eu sofria uma mutação,
Perdia minha cor,
Me sentia pesada
E sendo cooptada por
Aquele cenário esquecido,
Empoeirado.
As camadas de poeira sobre mim
Fez-me ser parte daquele cenário
E eu já desconhecia quem
Eu era,
Havia me perdido.
Em algum dia qualquer,
A porta se abriu,
Um clarão encheu a sala
Alguém se aproximou da
Escrivaninha
Mexeu nos papéis,
Pegou o livro em que me
Encontrava,
Assoprou a poeira
E junto fui eu
Ao vento.
O livro é levado embora,
Acabou o clarão
E eu fiquei a pairar no ar
Até cair no chão.
Mas ali já não era mais eu,
Havia me transformado
Em outra coisa
Que eu não sabia mais o que era.
Mas estando naquela
Situação,
No chão
E só
Eu sentir saudades
De ser novamente
Aquela pena branca
Que um dia eu fui
E se desprendeu
Acreditando que encontraria
Motivos para ser
Feliz.
Allex Borges
Juiz de Fora, junho de 2013