quinta-feira, 14 de abril de 2016

Enredo: Com pé direito na passarela, sai da frente que lá vem ela...

Alexandro Borges

“Toda manifestação simbólica tem seu valor e não deve deliberadamente ser extinta ou anulada” (Giancarlo Kind Schimid).

Muitas coisas nos são contadas ao longo que vamos crescendo, principalmente pelas nossas avós, grandes guardiãs da memória das famílias, dos costumes e das tradições. Algumas histórias ficam presas no nosso imaginário pessoal e social e vão se transformando em regimes de verdade. Quem nunca andou com um trevinho de quatro folhas, um galhinho de arruda atrás da orelha ou entrou em casa com o pé direito?
Pois bem, essas são algumas das superstições que fazem parte do nosso processo de socialização e estão cada vez mais presentes no imaginário social.  Sem dúvida, o que consagra as superstições e as colocam no campo privilegiado das crenças é o medo que temos do desconhecido aliado à insegurança da vida. “São nas experiências do dia-a-dia, nos sucessos e nos fracassos que se fazem notar o imbatível otimismo do ser humano, em outras palavras, sua vontade de acreditar. Desde tempos remotos os fenômenos da natureza, o respeito pela vida e morte e a não compreensão de determinados eventos naturais e físicos contribuíram para a criação de lendas, mitos e crendices” (SARTORATO, Camila).
As superstições assumem sempre um caráter defensivo, protegendo-nos de uma energia negativa, ou seja, realizada para evitar um mal ou algo não desejado e/ou trazer bonança e positividade. “Etimologicamente, a palavra superstição vem do latim superstes, que dentre os muitos significados, inclui o de sobreviver. A origem das superstições é incerta, mas existem três principais fatores responsáveis: a religião, o folclore (ou lendas e mitos) e os aspectos culturais de um povo. O primeiro é responsável pelas crendices, manifestadas a partir do temor ao demônio e bruxas, durante a Idade Média” (Ibid).
Nesse cenário, os amuletos despontam como um dos principais aliados e se transformam em adornos e jóias, sinais exteriores de fé e de proteção. “São objetos de defesa, ao qual se atribui a virtude de afastar malefícios e trazer boa sorte, como a figa, um ramo de arruda, olho, búzio, trevo, ferradura. O talismã tem a mesma finalidade do amuleto, mas é feito especialmente para determinada pessoa, e só a ela irá defender” (GASPAR, Lucia, 2010).
Para além desses amuletos, existem os banhos com ervas e rituais que "limpam" o ambiente, o corpo dando-lhe resistência e proteção pessoal. Sem dúvida, uma boa parte de nossas superstições tem raízes fortíssimas na Mãe África e aqui foram trazidas por nossos ancestrais,os negros.
As superstições não necessariamente estão imbricadas com algo que produza medo ou defesa de algum mal, existem as que fazem parte dos nossos rituais cotidianos como as realizadas no Ano Novo, nas festas juninas, os três nós na fitinha do Bonfim, ou a criança jogar o dente de leite no telhado para obter dentes fortes.
É fato que as superstições são um fenômeno universal e se fazem presentes em todas as sociedades estudadas. Por exemplo, “As superstições ligadas à gravidez e ao parto são muito antigas e têm uma grande importância na vida dos povos. Os filipinos acreditam num espírito maligno que perturba o parto, tornando-o penoso. Os húngaros costumavam atirar pó sobre a cabeça da parturiente para afastar os maus espíritos. Em algumas tribos africanas havia a crença que a mulher grávida não devia acompanhar enterro porque a alma do morto poderia encarnar no bebê. Entre os índios da Amazônia, as mulheres, principalmente quando estão grávidas, não devem assistir ao preparo do curare (veneno), não podem pegar na caça e nas armas. Não podem comer paca, pois do contrário não conseguiriam dormir” (Ibid.).    
 De norte a sul do país, temos superstições que se reeditam, se transformam, se reproduzem, mas todas trazem em si a mesma essência, em sua maioria, servem para intimidar ou alertar. “Assim como é muito mais seguro recorrer às previsões meteorológicas oficiais, do que arriscar um palpite, antigamente, também, as profecias eram deixadas por conta de pessoas as quais se supunha dotadas de conhecimentos especiais” (SARTORATO, Camila). De acordo com Schimid algumas crenças se estabeleceram de tal forma, que deram origem a personagens fictícios como os vampiros (que não suportam água benta, a cruz santa, alho, a luz do sol e a Bíblia), e a do lobisomem (que se transforma na Lua Cheia, só é morto com balas de pratas, e é fruto do sétimo filho varão de uma família só de homens).
É sabido que ninho de beija-flor em casa é sinal de fertilidade e felicidade. É acreditando na nossa fertilidade e felicidade que a família Beija-Flor navega pelo mar das superstições e traz para a passarela do samba um enredo irreverente e cheio de magia encantando a todos(as) amantes de um bom samba, da nossa escola e da Marquês de Sapucaí. Nas asas do beija-flor voa a nossa imaginação e traz para o maior espetáculo da terra a nossa força com ajuda para mais um desfile soberano com a benção dos deuses.  
Bibliografia:
GASPAR, Lúcia. Superstições e crendices. Pesquisa Escolar On-Line, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://www.fundaj.gov.br>.

VIEIRA FILHO, Domingos. O mundo das superstições. São Luiz: Departamento de Cultura do Estado, 1963.

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