domingo, 22 de junho de 2014

Enredo: De frente pro espelho: Nem tudo que se ver é!


“O espelho aprisiona em si um segundo mundo que lhe escapa, no qual o homem se vê sem poder se tocar, encontrando-se separado dele por uma falsa distância, que pode diminuir mas não transpor” (Gaston Bachelard).


 Sentada ao pé da cachoeira, serena e tranquila entoando seu cantar, ela a rainha das águas doce, Oxum, orixá mais linda e formosa, fica com o seu o abebé em punho a se admirar. Narciso, o belo que diante do lago cristalino se apaixona por tamanha beleza e nada a sua procura. A rainha perversa, que ávida pela beleza absoluta num conto de fadas, o tem como um oráculo buscando ser a mais bela das belas. Louis XIV, o rei sol obcecado por seu fascínio o condecora no Palácio de Versalhe/França. E monga aquela que encanta e assusta a plateia por décadas faz sua transformação diante dele. Há uma imagem que se tem, uma imagem que se cria e outra que se distorce diante dele, o espelho.
A magia exercida pelo espelho consiste no poder quase sobrenatural de possibilitar para além da imagem, a reflexão sobre a essência e a verdade do sujeito que fita o espelho.
Estilhacei o espelho
a pontapés
pensando destruir
a própria imagem.
(E era eu que habitava
além do espelho.)
Por isso em cada caco
habita agora
um pedaço de mim,
esquartejado.
(José Manuel Simões, 1992, p. 23).

 Desde os primórdios de sua criação ainda na civilização Badariana (do Egito, junto ao Rio Nilo) o espelho já desapertava fascínios, encantos, magias, desencantos e superstições. Alguns mais outros menos, mas todos nós somos prisioneiros dele. É uma mística que nos seduz e nos perturba há séculos, que não acaba com o tempo, ao contrário, se intensifica, nos consome por completo corpo e alma. Não permite apenas olhar melhor o mundo, mas possibilita também ver a si mesmo na ótica dos outros.

Têm horas que ele se apresenta como amigo e, em outros, como inimigo. Mas é fato que ficamos reféns dele. O lugar do espelho na nossa vida se tornou vital, é como se pudéssemos materializar o tempo, os minutos da vida ali diante dos nossos olhos.
Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?
(MEIRELES, 1995, p. 63-64)
Para além de assumir um lugar central na nossa civilização, ele também se diversificou com o passar do tempo. Mas manteve um papel importante na cultura popular e no imaginário social.

Foi o franciscano John Pekamom um dos mentores do espelho em meados do século XIII, mas sua popularização se deu bem mais tarde no século XVIII no qual ele sai do glamour dos palácios vienenses e passa a fazer parte também do espaço doméstico das casas de Paris, da vida cotidiana e dos momentos de intimidade. Em todo canto ele está lá, como um totem, registrando cada forma, materializando cada contorno.

Dos espelhos artesanais de cobre, deixados pelo homem primitivo no quinto milênio a.C. aos sofisticados espelhos estampados na Galeria dos Espelhos de Versalhes e aos populares melenkie utilizados como ornamentos em cinto e correntes, demonstram o poder do seu fascínio exercido no tempo. Talvez, o mesmo fascínio que impulsionou a Alice adentrar dentro dele e descobrir seus encantos e superar seus obstáculos na conquista de sua coroa e assim se tornar a rainha daquele lugar. 

Mas você já parou para se perguntar: O que seria de nós sem os espelhos? Sem poder controlar as nossas caras e bocas? Sensualizar, exercitar o nosso erotismo?  Ensinar-nos a beijar? Pentear os cabelos? Enfim, a nos admirar? Com certeza, estaríamos fadados ao fracasso, uma vez que o espelho é uma possibilidade única de visualização e existência do eu, mas quando este não existe mais, é como se também o sujeito deixasse de existir.

Sem o espelho não há o belo, eles se completam, se misturam. É nessa busca infindável pela perfeição que nos metamorfoseamos diante dele e produzimos variadas e distorcidas imagens.
Hoje que seja esta ou aquela,
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.
Já fui loura, já fui morena,
já fui Margarida e Beatriz.
Já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.
Que mal faz, esta cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto,
se tudo é tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?
Por fora, serei como queira
a moda, que me vai matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.
Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seus
e morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.
Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se no espelho.
                           (Cecília Meireles, Mulher ao Espelho)

É diante do espelho que a nossa escola vem saldar a Marquês de Sapucaí e mostrar que é a mais bela das belas, a musa da passarela, a alegria que embala nossos corações e renova nosso amor pelo seu pavilhão seja de cara pintada ou de cara limpa. Pois nem tudo que se vê, é!      

Alexandro Borges
Juiz de Fora, junho de 2014

Nenhum comentário:

Postar um comentário