Neste momento, endereço-me a todos vocês que desconhece ainda quem sou.
Muitas foram às línguas que falaram sobre mim, sobre meus deuses, minha comida,
minhas histórias e minha fé, mas poucas delas, de fato, pararam para me ouvir.
Muitos foram os que pisaram meu chão, mas cuspiram em minha honra e caçoaram de
minha integridade. E assim me calei e cuidei de cicatrizar as feridas para
sobreviver.
Os anos se passaram, novos tempos tomaram as savanas e os desertos e hoje
faço de minha voz um grande cantar, um chamamento daqueles que traz dentro de
si a chama que não se apagou, o cordão umbilical que não se rompeu, o amor que
não se esvaiu, o banzo que não o destruiu, o asè que se perpetuou. Eu sei que não
gozo mais de minha mocidade, se não vaga a memória, são 3 milhões de anos de
história. Eu sou aquela, cujos Omo e Esé
foram arrancados abruptamente dos meus seios fartos sem que, ao menos, eu os
abençoasse a partida. Sou a que não deixou se abater pelas violências e pela
dor do passado e, muito menos, pelo esquecimento do presente.
Em Obatalá encontro forças e almejo dias de glória para os meus Esé (filha) e Omo (filho) e para os filhos de todas as outras,
pois uma mãe quer bem aos seus filhos e também aos filhos das outras mães. Por
muito tempo, os olhos do invasor, tal qual um feitiço, uma maldição,
apoderou-se sobre minha nação, meu povo e foram tempos terríveis. Destruíram nossos
reinados, saquearam nossas riquezas, encarceraram nossos sonhos, aprisionaram
nossos corpos. E assim, abriram uma enorme chaga em meu ventre manchando de
sangue e lágrimas o Índico, o Atlântico e terras como as das Américas e do
Caribe. E vi filhos e filhas a dispersar-se por esse mundo afora levando na
bagagem apenas o seu amor para comigo conformado em vossos espíritos de luta e
resistência. Mas eu permaneci forte para que eles também os tornassem fortes. E
apoiada no bastão de Xangô ergui minha esperança de construirmos um mundo mais
justo e igualitário onde possamos viver em fraternidade.
Do imperialismo à colonização, a qual fui submetida, eu vi nascer o
racismo, a maldade, a hostilidade diante do brilho de minha pele, da minha gente
e, mais uma vez, eu chorei. Pedi ao pai Oxalá clemência, perdi perdão pelos
ignorantes que me ignora e enxota. Pedi que o valor da pele não substituísse o
valor de nossa alma, que ela agregasse e não o separasse. Eu sou aquela de quem
o banzo se fez presente no tempo da senzala ao recordar-se do Ilu Ayê, das
rodas de jongo, da cabala, do batuque e do cateretê. Aquela que aliviava as
dores dos chicotes e os protegia com os pontos de Umbanda e do Candomblé
acompanhados ao som de palmas, tambores, atabaques e agogôs. Eu sou a que tristemente
conduziu meus amados ao Òrun Rere.
Você pode até não falar minha língua, o meu dialeto. Não gostar da cor de
minha pele e do meu cabelo. Ainda pode não se importar de onde eu vim, mas
jamais será indiferente ao meu amor para com meu povo e meu asé. Pois é isso
que me mantém viva e renovada. Eu sou aquela que voa nas asas do sankofa[2], a
viva em Mandela, Malcom X e Martin Luther King, imortalizada no cantar de Clementina de
Jesus, Jovelina Pérola Negra e Clara Nunes. Iluminada e sagrada nos terreiros de Tia Ciata
e Mãe menininha do Cantois. Eu sou aquela que brota em cada coração humano que
clama pela igualdade e fraternidade entre os povos. Muito prazer, eu sou
ÁFRICA, a mãe de todas as mães! E deixo
o Nkenda como um legado para vós sob as bênçãos dos Òrìsà.
Hoje, a
mesma mão que apanhou e foi acorrentada é a que se ergue agora para
pedir por solidariedade entre os povos numa aspiração por justiça, progresso e
paz. Eu sou Nkenda, eu sou o amor e que a voz da liberdade seja sempre a nossa
voz para todo o sempre em todo cantar, em toda a terra e também na passarela do
samba.
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