domingo, 22 de junho de 2014

Um coro machista na arena do Corinthians: A moral do cu




Treino é treino, jogo é jogo e machismo é a bola da vez. Fiquei vendo aquela cena de milhares de pessoas vestidas de amarelo, em alusão ao seu país, num só coro a gritar, em alto e bom tom, o nome de sua representante maior, eleita democraticamente pelo voto popular, mandando-a tomar no cu e fiquei pasmo!

Aquilo me incomodou muito, não apenas por eu considerar algo mal-educado e deselegante para um país anfitrião de um evento mundial, não por eu apoiar o governo e ter a certeza que o país se desenvolveu nesses 12 anos de administração petista. E não ainda por considerar, de acordo com minha educação, que roupa suja se lava em casa. Mas me incomodou pelo teor simbólico que aquele coro representou e aí fiquei pensando o que de fato seria a expressão tomar no cu. Um palavrão? Uma ofensa? Um agrado? Um prazer? 

Acredito que essa atitude, que a meu ver têm muito tucanalha  pagos a peso de ouro infiltrados como torcedores para puxar o coro, resume toda aquela gente que fez parte do coro, da massa de manobra, são autênticos  hipócritas brasileiros, sim senhor! Os que hostilizam o evento em seus atos "politizados” nas redes sociais e em seus “protestos” com depredação do patrimônio público são os mesmos que gastam altas quantias para comprar a camisa oficial do evento, os disputadíssimos ingressos para assistirem o jogo nos estádios, a torcer a favor e a cantar com a mão no peito, em sinal de paixão pela sua terra, um trecho do hino nacional, talvez se soubessem a letra por completo teriam lembrado da frase “Dos filhos deste solo és mãe GENTIL”. Mas, deixa!

Bom! Mas isso que estou falando não é novidade alguma, fiquei pensando mesmo foi no “tomar no cu”. Essa é uma mensagem de múltiplos significados, pois quando se diz "vá tomar no cu", automaticamente se instaura um código de conduta aí, um interdito, um tabu. Está dizendo que esse ato é um ato permissivo, repugnante, ultrajante e quem o prática ou pensa em praticá-lo também o é. Ele é o irmão marginal da vargina, que é a correta, pura e santa. Explicita-se uma moral sexual naturalizada e naturalizante dos sujeitos, calcadas no binarismo homem e mulher, o normal e o anormal.

E aí percebi que a hipocrisia se junta ao machismo, afinal, mais uma vez, o cu no discurso oficial é hostilizado e banido socialmente das zonas erógenas de prazer em detrimento de uma moral heteronormativa cristã. Todo mundo gosta dele, alguns mais outros menos, mas ele é no mínimo perturbador. Mas não se pode assumir o interesse por ele e, quem assume, é punido publicamente pelos detentores da moral e dos bons costumes, tal qual na arena Corinthians se viu hoje.

As mulheres que endossaram o coro reforçavam as grades de sua sexualidade, condenavam suas pobres varginas à espera de pênis que, talvez nunca chegue ou nunca lhe faça feliz. Que seu desejo fiquei restrito, passivo, encarcerado aespera de um príncipe. E quanto aos homens, bom, depois de duas, três cervejas, paira uma moral singular e se não o encontra em casa, aventuram-se nas ruas, clubes e esquinas, alguns mais destemidos, como o Fenômeno, arrisca-se ao hibridismo sexual. E dia seguinte não se fala mais nisso.    

Vi na arena Corinthians o mesmo ímpeto de “justiça” que imperava nos tribunais da inquisição, dos que atiravam pedras, ateavam fogo e crucificavam os condenados. Tomar no cu não foi uma lição “moral” direcionada apenas a presidenta Dilma, mas a todos aqueles(as) que ousem contrariar a moral heteronormativa. É de atos como esse que saí o aval e a legitimação para práticas homofóbicas, assassinatos de homossexuais, travestis, prostitutas, nordestinos, negros, pobres e de todos(as) cuja o “cu” não se pode ter controle e fere a “moral” de lá. Além de ser um incentivo a hipocrisia e a promoção da mentira sempre e em todas as circunstâncias. A agir na clandestinidade, como fazem muitos por aí que gostam de tomar no cu, mas não deseja ser hostilizado e descoberto por isso.

Se a copa foi um erro para o Brasil, coisa que não concordo, os protestos são uma grande e tremenda farsa, tal qual a lei que rege a moral do cu. E diante da liberdade sexual adquirida na contemporaneidade, essa expressão já não faz mais sentido algum, perdeu seu sentido tal qual os referidos protestos. Torço para que a presidenta Dilma seja subversora da moral cristã e realmente goste de tomar não só no cu, mas em todos os lugares que lhe dê prazer, pois não tem nada mais libertador do que deter a autonomia dos próprios desejos. E daí esse coro não seria uma ofensa ou ditame heteronormativo, mas um grande incentivo para se sentir e ter prazer.
                                                                                                              

*** Não vi o porquê de censurar o "palavrão" no texto, uma vez que ele foi ouvido em alto e bom tom em canais de televisão e horário nobre. Fazer isso aqui seria uma tremenda hipocrisia.

Alexandro Borges
Juiz de Fora, junho de 2014

                                                                                                                   










                                       

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