Aquilo me
incomodou muito, não apenas por eu considerar algo mal-educado e deselegante
para um país anfitrião de um evento mundial, não por eu apoiar o governo e ter
a certeza que o país se desenvolveu nesses 12 anos de administração petista. E
não ainda por considerar, de acordo com minha educação, que roupa suja se lava em casa. Mas me incomodou
pelo teor simbólico que aquele coro representou e aí fiquei pensando o que de
fato seria a expressão tomar no cu. Um palavrão? Uma ofensa? Um agrado? Um
prazer?
Acredito
que essa atitude, que a meu ver têm muito tucanalha pagos a peso de ouro infiltrados como
torcedores para puxar o coro, resume toda aquela gente que fez parte do coro,
da massa de manobra, são autênticos
hipócritas brasileiros, sim senhor! Os que hostilizam o evento em seus
atos "politizados” nas redes sociais e em seus “protestos” com depredação
do patrimônio público são os mesmos que gastam altas quantias para comprar a
camisa oficial do evento, os disputadíssimos ingressos para assistirem o jogo nos
estádios, a torcer a favor e a cantar com a mão no peito, em sinal de paixão
pela sua terra, um trecho do hino nacional, talvez se soubessem a letra por
completo teriam lembrado da frase “Dos filhos deste solo és mãe GENTIL”. Mas,
deixa!
Bom! Mas
isso que estou falando não é novidade alguma, fiquei pensando mesmo foi no
“tomar no cu”. Essa é uma mensagem de múltiplos significados, pois quando se
diz "vá tomar no cu", automaticamente se instaura um código de
conduta aí, um interdito, um tabu. Está dizendo que esse ato é um ato permissivo,
repugnante, ultrajante e quem o prática ou pensa em praticá-lo também o é. Ele
é o irmão marginal da vargina, que é a correta, pura e santa. Explicita-se uma
moral sexual naturalizada e naturalizante dos sujeitos, calcadas no binarismo
homem e mulher, o normal e o anormal.
E aí
percebi que a hipocrisia se junta ao machismo, afinal, mais uma vez, o cu no discurso
oficial é hostilizado e banido socialmente das zonas erógenas de prazer em detrimento
de uma moral heteronormativa cristã. Todo mundo gosta dele, alguns mais outros
menos, mas ele é no mínimo perturbador. Mas não se pode assumir o interesse por
ele e, quem assume, é punido publicamente pelos detentores da moral e dos bons
costumes, tal qual na arena Corinthians se viu hoje.
As
mulheres que endossaram o coro reforçavam as grades de sua sexualidade,
condenavam suas pobres varginas à espera de pênis que, talvez nunca chegue ou
nunca lhe faça feliz. Que seu desejo fiquei restrito, passivo, encarcerado
aespera de um príncipe. E quanto aos homens, bom, depois de duas, três cervejas,
paira uma moral singular e se não o encontra em casa, aventuram-se nas ruas, clubes
e esquinas, alguns mais destemidos, como o Fenômeno, arrisca-se ao hibridismo
sexual. E dia seguinte não se fala mais nisso.
Vi na
arena Corinthians o mesmo ímpeto de “justiça” que imperava nos tribunais da
inquisição, dos que atiravam pedras, ateavam fogo e crucificavam os condenados.
Tomar no cu não foi uma lição “moral” direcionada apenas a presidenta Dilma,
mas a todos aqueles(as) que ousem contrariar a moral heteronormativa. É de atos
como esse que saí o aval e a legitimação para práticas homofóbicas,
assassinatos de homossexuais, travestis, prostitutas, nordestinos, negros,
pobres e de todos(as) cuja o “cu” não se pode ter controle e fere a “moral” de
lá. Além de ser um incentivo a hipocrisia e a promoção da mentira sempre e em
todas as circunstâncias. A agir na clandestinidade, como fazem muitos por aí
que gostam de tomar no cu, mas não deseja ser hostilizado e descoberto por
isso.
Se a copa
foi um erro para o Brasil, coisa que não concordo, os protestos são uma grande
e tremenda farsa, tal qual a lei que rege a moral do cu. E diante da liberdade
sexual adquirida na contemporaneidade, essa expressão já não faz mais sentido
algum, perdeu seu sentido tal qual os referidos protestos. Torço para que a
presidenta Dilma seja subversora da moral cristã e realmente goste de tomar não
só no cu, mas em todos os lugares que lhe dê prazer, pois não tem nada mais
libertador do que deter a autonomia dos próprios desejos. E daí esse coro não
seria uma ofensa ou ditame heteronormativo, mas um grande incentivo para se
sentir e ter prazer.
*** Não vi o porquê de censurar o
"palavrão" no texto, uma vez que ele foi ouvido em alto e bom tom em
canais de televisão e horário nobre. Fazer isso aqui seria uma tremenda
hipocrisia.
Alexandro Borges
Juiz de Fora, junho de 2014
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