ANA ALVES (1930-2014)
Zeca Velloso canta com o pai, Caetano Velloso, uma canção que diz: “Todo homem precisa de uma mãe “... sem dúvida, a mãe faz uma diferença fundamental na vida de seus rebentos, seja ensinando os caminhos, seja abençoadando os caminhos que se abrem diante deles.
Palmeirinha também tinha uma mãe, popularmente conhecida como Ana da Serra do Coco, que na verdade não era uma serra, mas, no nosso entendimento, um grande quilombo cheio de afetos, ensinamentos e preceitos religiosos.
Ana da Serra teve 04 filhos, Isabel(Nilza), Manoelito, João e Renildo. Dividia seu tempo entre a casa, a roça de cacau e como zeladora de santo. Apesar da pouca instrução, era mestre nos conhecimentos que a vida lhe proporcionou.
Mulher negra, trouxe dos seus antepassados a religião de matriz africana, Candomblé, e com ele ergueu seu barracão no pé da Serra (talvez para sentir mais de perto as forças da natureza, que é a senhora das religiões de matriz africana). Assim, todos que chegavam a seu Ilê era recebido com uma palavra de carinho, conforto, esperança e fé.
As rezas de santo era uma comoção regional, vinha gente de todo canto motivados pela fé, alegria e fartura que elas representavam. Comer o caruru de Ana era um verdadeiro privilégio. Ali se rezava, paquerava, fazia amigos, renovava laços de compadrio, parentesco e solidariedade entre as famílias. Para ir até o caruru de Ana, o caminho era curto e, em noites escuras ou iluminadas pelo luar, as pessoas adentravam a roça de cacau, com seu melhor traje, para se fazer presente ao evento.
Ana teve uma vida longa, mas infelizmente a doença a alcançou e ela deixa a Serra do coco e passa a morar no povoado. Permaneceu acamada por 10 anos,sendo amparada por sua nora, Maria da Conceição , e sua filha Nilza. Mas mesmo estando debilitada, não a impedia de cantar seus pontos, suas chulas e realizar suas obrigações, um exemplo de resistência e fé.
Com os filhos e filhas encaminhados na vida, Ana pôde descansar e seguiu seu caminho de luz em 12 janeiro de 2014. Desde sua doença, o centro foi fechado e Ana deixou como legado uma história de luta, honra, alegrias e fé. Como ninguém esquece de sua mãe, a Palmeirinha também não, por isso hoje dedicamos este espaço para ela.
Nosso agradecimento ao Danyel Cerqueira Souza(neto), que disponibilizou suas memórias, seus arquivos pessoais e segue numa busca por manter a memória de sua vó viva. Parafraseando suas palavras para a ela findamos este texto:
"Nada poderá apagar do nosso pensamento a saudade e a doçura da sua presença”.
É bem isso, sigamos...
Juiz de Fora, setembro de 2019
Alexandro Borges Batista
Fotografia: arquivo de família

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