quarta-feira, 25 de março de 2015

Enredo: O mensageiro de dois mundos nas asas de um beija-flor: a África que brotou entre nós


 Alexandro Borges
  
Olorun, o deus supremo, criador do universo e de todas as maravilhas que existe nos nove espaços do Orun ordenou no alto de sua grandeza e sabedoria que Oxalá criasse o homem. E da lama trazida do fundo do rio pelas mãos de Nanã, a ordem foi cumprida.
Oxalá criou o homem e soprou-lhe a vida, desse dia em diante o mundo não seria mais o mesmo. E, tal qual um beija-flor, alguns desses homens criariam assas e se tornariam mensageiros na unificação entre os povos e, Pierre Fatumbi Verger, foi um dos escolhidos.
O filho de Xangô, de Mãe Senhora de Oxum, iniciado em Ifá encontra seu pouso na terra de São Salvador e fez do terreiro de Opô Afonjá seu pedaço de chão. Tal como um machado em punho, Fatumbi se apropriou de sua rolleflex e fez ressurgir em uma população negra desacreditada, um sentimento de pertencimento no resgate de seus costumes, suas crenças e de sua fé. Proporcionou-lhes um olhar para dentro de si no resgate de sua raiz, de sua ancestralidade, afinal “se wo were fi na wosan kofa a yenki” (não é tabu voltar atrás e buscar o que esqueceu)[1]. Neste momento dois povos se fundiam um francês branco e uma nação negra abençoada pelo Senhor do Bonfim. E assim nascia o grande mensageiro, o ojúobá (os olhos do rei).
Ojúobá se incube da missão de resgatar o elo perdido, recompor o cordão umbilical que foi violentamente cortado antes do nascimento. Assim, retorna ao útero genitor, a África, principalmente em Benin, em busca de religar esse cordão e resgatar uma história esquecida capaz de reascender a vitalidade de um povo. Entre fotografias, mensagens, cartas e escritos ele consegue estabelecer um vínculo entre os povos negros do “velho Mundo” com seus irmãos no “Novo Mundo”, tornando-se um mensageiro dos deuses, principalmente os pertencentes á tradição yorumbá. E aos poucos, a África perdida vai ressurgindo com seus cantos, tambores, rituais, cores dentro de cada negros e negras distantes da terra-mãe, elucidando aspectos, até então desconhecidos, das múltiplas ligações entre a Bahia e a África.
Os tambores rufaram em terras africanas e ecoaram na Bahia, despertaram as almas adormecidas nos terreiros de todos os santos. E o Atlântico que nos separa, volta a ser um mar de negros, desta vez sem navios negreiros, sem lamúria ou penar, mas um navio de mitos, cantigas, provérbios, deuses, cores e felicidades guiados pelo Sankofa[2] rumo ao Basil-Áfricas. E o banzo que até então era algo freqüente naquela terra, deixa de existir cedendo lugar para a alegria de um povo.  África e Bahia, uma só terra,um só sangue e um só sorriso... Viva a África, meu filhos!! Viva a Bahia!!







[1]Revista SANKOFA  http://www.africawithin.com/studies/sankofa.htm. Data de acesso: 19/04/2014
[2] É um pássaro mítico que voa para frente, tendo a cabeça voltada para trás e carregando no seu bico um ovo, o futuro, em suas costas apresenta um formato de coração estilizado. Significa voltar ao passado para resignificar o presente.

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