Alexandro Borges
Olorun, o deus supremo, criador do universo e de todas as maravilhas que
existe nos nove espaços do Orun ordenou no alto de sua grandeza e sabedoria que
Oxalá criasse o homem. E da lama trazida do fundo do rio pelas mãos de Nanã, a
ordem foi cumprida.
Oxalá criou o homem e soprou-lhe a vida, desse dia em diante o mundo não
seria mais o mesmo. E, tal qual um beija-flor, alguns desses homens criariam
assas e se tornariam mensageiros na unificação entre os povos e, Pierre Fatumbi
Verger, foi um dos escolhidos.
O filho de Xangô, de Mãe Senhora de Oxum, iniciado em Ifá encontra seu pouso
na terra de São Salvador e fez do terreiro de Opô Afonjá seu pedaço de chão.
Tal como um machado em punho, Fatumbi se apropriou de sua rolleflex e fez
ressurgir em uma população negra desacreditada, um sentimento de pertencimento
no resgate de seus costumes, suas crenças e de sua fé. Proporcionou-lhes um olhar
para dentro de si no resgate de sua raiz, de sua ancestralidade, afinal “se wo
were fi na wosan kofa a yenki” (não é tabu voltar atrás e buscar o que esqueceu)[1].
Neste momento dois povos se fundiam um francês branco e uma nação negra abençoada
pelo Senhor do Bonfim. E assim nascia o grande mensageiro, o ojúobá (os olhos
do rei).
Ojúobá se incube da missão de resgatar o elo perdido, recompor o cordão
umbilical que foi violentamente cortado antes do nascimento. Assim, retorna ao útero
genitor, a África, principalmente em Benin, em
busca de religar esse cordão e resgatar uma história esquecida capaz de
reascender a vitalidade de um povo. Entre fotografias, mensagens, cartas e
escritos ele consegue estabelecer um vínculo entre os povos negros do “velho
Mundo” com seus irmãos no “Novo Mundo”, tornando-se um mensageiro dos deuses, principalmente
os pertencentes á tradição yorumbá. E aos poucos, a África perdida vai
ressurgindo com seus cantos, tambores, rituais, cores dentro de cada negros e
negras distantes da terra-mãe, elucidando aspectos, até então desconhecidos,
das múltiplas ligações entre a Bahia e a África.
Os tambores rufaram em terras africanas e ecoaram na Bahia, despertaram
as almas adormecidas nos terreiros de todos os santos. E o Atlântico que nos
separa, volta a ser um mar de negros, desta vez sem navios negreiros, sem
lamúria ou penar, mas um navio de mitos, cantigas, provérbios, deuses, cores e
felicidades guiados pelo Sankofa[2] rumo
ao Basil-Áfricas. E o banzo que até então era algo freqüente naquela terra,
deixa de existir cedendo lugar para a alegria de um povo. África e Bahia, uma só terra,um só sangue e
um só sorriso... Viva a África, meu filhos!! Viva a Bahia!!
[1]Revista
SANKOFA http://www.africawithin.com/studies/sankofa.htm. Data de acesso:
19/04/2014
[2] É
um pássaro mítico que voa para frente, tendo a cabeça voltada para trás e
carregando no seu bico um ovo, o futuro, em suas costas apresenta um formato de
coração estilizado. Significa voltar ao passado para resignificar o presente.
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