Manhã no centro do RJ
Ruas históricas, desertas.
Passos rápidos, silenciosos,
Pensamentos a mil.
Era chegado o dia
Faltavam alguns minutos
Para o passado se unir ao presente,
O sonho conhecer a realidade,
Para o medo ceder lugar a coragem.
Cinco anos intenso de convívio óptico
Agora era questão de poucos metros
Cada passo, uma aproximação...
Calafrios...
A busca de um novo começo
De uma virtualidade, dessa vez, palpável
Esperança...
A sintonia de dois corações, puros e dóceis.
A certeza de encontrar o virtual
Era forte, era viva
E se fazia pungente
Em cada lembrança, em cada papel guardado
O suficiente para não se distanciar dele
Para além do suportável.
O calor que afagava o coração,
Atormentava o corpo
Assolavam os pensamentos mais pudicos.
A vontade de querer estar junto
Persistia.
E assim,
Dado à distância
Não mais aos desencontros
Aos deletes e aos resets.
A espera de longa data,
A ansiedade de outrora,
As noites em claro, com o olhar fixo
Ora para a tela, ora para teto
Era agora mero detalhe.
Quando o virtual se tornou real
Os medos,
As dúvidas
E incertezas
Afloraram numa primavera infinita.
O coração parecia querer saltar do peito,
A barriga estava vazia e aquecida
Um friozinho na espinha.
As mãos geladas e trêmulas
Não sabiam como porta-se
Fora, dentro
Na boca, no bolso
Em todo canto e em canto nenhum
Elas não sabiam como fazer...
Já não se tinha muito que fazer.
Quando o virtual se tornou real
O sol os traiu,
Deixou o dia fechado
Esquivou-se para não presenciar o encontro
Em seu lugar
Mandou os ventos e o relento
Para não nos deixar a sós.
Também não havia girassóis
E nem borboletas
Mas tinha a gente
Inteira, acanhada,
Contente com o encontro.
Tinha o desejo,
Tinha as bocas secas
Sedentas por um beijo molhado
Tinha a vontade...
Tinha dois corações desavisados
Num amor sem fim
Sem pé nem cabeça
Insano...
Numa via de mão dupla.
Um encontro intenso e frágil
Irresponsável e modesto.
Ao mesmo tempo forte
Grandioso e nosso
Estava ali,
Cinto anos em cinco e poucos minutos de segundos.
Tudo junto e tudo misturado.
Certamente, os anos de virtualidade
Trouxeram consigo cumplicidade.
Tantas foram às coisas ditas,
Prometidas...
Outras tantas descobertas
E tantas de outras tantas compartilhadas
Estávamos ali, despidos.
Um diante do outro...
Quando o virtual se tornou real
O realismo das palavras,
Dos sons e gestos
O afagar do cheiro do outro
Era a mais perfeita tradução de persistência
De carinho e lealdade
Um sentimento,
Uma vontade dual.
Quando o virtual se tornou real
O perfume virtual invadiu o desprotegido corpo
E a vontade que se tinha
Era a de deleitar-se de prazer
Naqueles braços fortes,
Numa cama (des)conhecida.
De jogar a boa educação pela janela
E saborear cada pedaço daqueles beijos, que não foram dados...
Enroscar naquele corpo que não fora tocado
De libertar o sorriso tímido
Que parecia interromper
Alguma coisa por dizer.
Ali já se tinha perdido a noção do eu
E já não se sabia
E nem procurava saber
O que era real
O que era ficção...
Tudo era magia,
Tudo era devaneio.
Quando o virtual se tornou real
Tudo ficou assim, um tanto pequeno demais
Para os dois.
Havíamos crescidos
Nos tornados gigantes
E o lugar de antes, não cabia mais
Era preciso de algo maior
De mais espaço
De mais entregas.
Silêncio...
Quando o virtual se tornou real
As certezas de até então
Viraram dúvidas
O conhecido se tornou estranho
O familiar se tornou exótico
A esperança de ficar juntos
Cedeu lugar a certeza de um espaço improvável
E aos poucos fomos nos desconectando...
Aos poucos...
O sorriso amarelou
As palavras fugiram da boca
E já não sabíamos mais o que dizer.
Para onde foram as frases prontas ensaiadas
Diante do espelho?
Onde estar o tom?
Foi em vão....
Se perderam no emaranhado de pensamentos
Acionados em um milésimo de segundo
Em nossa mente
Tudo de vez....
Quando o virtual se tornou real
Passaram-se as horas
A alma experimentava uma sensação estranha
Como fosse sendo esvaziada,
Sentimentos sufocados e amordaçados.
Não se ouvia apelos, gritos ou gemidos
Apenas tristeza, desapontamentos
Aos poucos, o real se definhava, parecia não ter mais graça.
Quando o real se deu conta, estava ele amando sozinho
Amando por dois
Sentindo por dois.
Do virtual restou apenas uma esperança
De um dia viver o não vivido
Em algum tempo, em algum lugar.
Seguiu em frente
Sem pressa...
Deixando para trás a incerteza
Do encontro.
Do real, não sei bem o que restou.
É como um espelho embaçado
Impreciso...
Entre virtualidades e realidades
Não há muito que dizer
As palavras são insuficientes
Os sentimentos são líquidos
Vive-se tudo e nada de uma vida
Nem quente nem frio
Nem meu e nem nosso
Nem verdade e nem mentira
Apenas um talvez...
É isso,
Dessa relação
Pode nascer um talvez...
Talvez nos conheçamos
Talvez nos amamos
Talvez, talvez, talvezzzzz
Não se espante
Essa lágrima que umedece esse papel
Não é de tristeza
É o selo de uma história
Cheia de talvez
Sem começo nem fim
De dias sem noites
E noites sem dias
Do fim de um começo
De um começo sem fim.
Quando o virtual se tornou real
Bom, não existia mais o virtual
Agora era eu e você
Um instante...
Um olhar...
Um até breve
A mensagem na tela:
Seu computador está sendo desligado...
O meu coração
Também...
Allex Borges
06/06/04
00:30h
Dedicado a história de amor mais linda que já vivi, até o momento, e por ela tenho grande carinho.
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