domingo, 2 de setembro de 2012

Outsider



Desde que eu me entendo por gente
Nunca me senti
Ou fui igual
Aos meninos de minha idade
Sempre faltava algo
Ou o tinha em excesso.
E assim foi por longos anos
De minha vida,
Deslocado do mundo
E das coisas
Em órbita de mim.

E quando se sente assim,
Sem lugar no mundo,
A gente começa a inventar o nosso
Do tamanho que nos cabe
E com as cores que enxergamos
Nossos sonhos,
Nossas dores
E nossas virtudes
Na intenção de se sentir,
Dentre outras coisas,
A suprema sensação de estar
Incluído,
Querido,
Estabelecido.

Nem alto demais nem baixo de menos
Nem gordo, nem magro
Preto, branco,
Homem, gay,
Unissex
Tudo é só um detalhe
Que nos separa
Da tênue linha
Que estabelece
O normal e anormal,
Permitido, proibido,
Legal, ilegal
Aceito ou excluído
E é esse detalhe
Que nos impulsiona
Seja para a vida,
Seja para a clausura,
Silêncio...


Com o passar do tempo
E seguindo o ritmo das coisas,
Os detalhes
Vão se tornando maiores
E a gente vai fazendo concessões,
Quebrando barreiras
Aqui e acolá para se enquadrar
E continuar na estrada da vida.
Mas confesso que ando muito cansado
De carregar à marca,
De ser outsider
Pois já quebrei tantas coisas pelo caminho
Que agora não sei mais
O que fazer com os pedaços
Que formaram...

Ninguém gosta de ser diferente,
Principalmente quando
A marca da diferença
Tende a nos desqualificar,
Minimizar
E a violentar o nosso eu.
Não é fácil viver à margem
Da estrada,
Nem do rio,
Tão pouco da marginalidade
Da vida.
Não vou reclamar,
Nem vou chorar
E nem falar como está tudo aqui
Dentro de mim.

Noites com sol
É tudo que desejo
Agora.
Uma vida,
Um lugar que me faça bem
Do jeito que sou
E como sou
Talvez assim eu tenha a chance
De experimentar o que é
Essa tal felicidade. 


Allex Borges
Juiz de Fora, setembro de 2012

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